sexta-feira, 17 de outubro de 2014

03] CENÁRIO SP - COMPRAS

Muito perfume, dos mais caros; pouca roupa para o calor de outubro em São Paulo, das melhores grifes; sapatos altos, dos mais modernos; carro confortável e moderno, ar-condicionado vidros escuros, importado. Ela sempre vai assim aos passeios no shopping com o cartão de crédito ilimitado fornecido pelo marido executivo, proprietário de uma rede de restaurantes espalhada pelo Brasil. Mas nem sempre foi assim: ela viera debaixo e com a devida e merecida ascensão social propiciada por anos e anos de uma bonança econômica.

Mal havia terminada a faculdade de Letras, universidade pública, e conhecera o tal marido "zona sul jardins rico nascido bem" e foi uma paixão desembestada. Vislumbrou então a grande chance de ao mesmo tempo amar e ser amada de verdade com uma possibilidade real de melhorar de vida. Foi o que aconteceu nestes dez anos de união: tudo certo e muito amor. 

Até descobrir, no começo do ano, que o marido rico tem duas amantes, sendo uma delas em Brasília - a assessora especial. A outra mora aqui mesmo em São Paulo, na Vila Mariana - garota de programa universitária. E foi tudo ao acaso porque nunca ela desconfiara que poderia ser traída. 
"É sempre assim, você não sabe?", redarguiu a melhor amiga quando ela lhe contou que o marido a traia e emendou dizendo que é uma injustiça isto ocorrer "já que nos amamos tanto".

Ela então, recuperada depois de um tratamento de sífilis adquirida do marido, vai aos shoppings e gasta até se cansar de ficar comprando e comprando. Sem parcimônia, afinal o limite de seu cartão de crédito é ilimitado. Assim como antes ela contava o dinheiro quando saía de casa para trabalhar, hoje ela não conta nada - sem necessidade de economizar, tampouco de se frear na "esquisitice neurótica" de comprar para viver: o único que ela encontrou e que consegue amortecer tristezas.

domingo, 12 de outubro de 2014

02] CENÁRIO SP - ITINERÁRIO PELA METRÓPOLE

Mora na Zona Leste, bem ali em Guaianases, onde antigamente se falava "onde Judas perdeu as meias, porque as botas foi em Itaquera". Antes, hoje não mais. Ele nem se importa pela distância e pelo tempo, afinal disposição para ir trabalhar no Centro da cidade logo pela manhãzinha todo dia ele possui. E de sobra: alguns meses desempregado, os gêmeos que nasceram, a depressão pós-parto da esposa fizeram um  "paredão" que resiste às mais fortes ondas vindas da vida. Daquelas que te derrubam estatelando a cara no chão arenoso.

"Sempre vem as ondas, os tsunamis". Comparou - e julgou uma boa comparação - depois de ter lido no telefone celular 3G que mais um maremoto ocorrera no Sudeste Asiático, com o epicentro perto da costa leste da Malásia. Foi dos fortes e a imagem da massa de água devastando tudo pelo litoral o remeteu ao seu dia a dia. Com uma diferença: ele não se afoga. "Este mar não vai me dar um capote não!".

Com 31 anos completos semana passada sem direito a nada - bem, um bolo teve... -a não ser um beijo bem demorado da esposa que parecia estar conseguindo sair da depressão, ele quase nem comemorou pelo noite afora, debaixo dos lençóis. Ultimamente tem se cansado logo chega em casa, ali pelas 19h. Mal tem força para comer porque prefere fazer isto entre os berços dos gêmeos que a esta hora sempre estão acordados e começam a responder aos estímulos do pai: gestos, pequenos assobios, trechos de músicas, estalar de dedos e riso desmesurado.

Mais uma noite cada um virado para o lado, bunda com bunda. O cansaço da noite mascara seu pouco apetite por sexo com a esposa. A razão - e ele bem sabe disto - é que ela está muito diferente daquela mulher que conhecera dois anos atrás em um show de black music na quadra do time de futebol de salão. Claro, ele entende o processo de gravidez e a consequente alteração no corpo dela... Só que não totalmente; os quase 15 quilos adquiridos durante os meses ainda estão aqui ao lado dele denunciando a transformação ocorrida.

Tornara-se um trabalhador das mãos e os calos agora já em ambas denotam o que lhe vem acontecendo: o prazer é mesmo solitário e a fantasia deste engloba delícias que inventa: a criatividade vai longe.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

01] CENÁRIO SP - VELHARIAS

Velharias, coberto de velharias, estava a casa assobradada (um palacete, como diria Adoniran) em uma rua nada movimentada da frenética metrópole-alfa, São Paulo. Ele vivia amarfanhado por antigos amores e meio à bagunça das velharias. Vez por outra, espiava, pela veneziana da sala a rua deserta quase sempre. Meias pretas, cueca e camiseta... 

Talvez um gorro na cabeça onde as entradas já se faziam notar ainda que tímidas; e claro uma boa dose de cafeína - agora sua droga preferida. Porque sentia mais frio hoje todo agasalhado do que antes ao andar de peito nu. E meias, afinal na Terra da Garoa, velhos devem se cobrir por completo.

Nem poderia/deveria ser diferente: com mais de 60 anos, beirando os 70, viveu intensamente até a juventude tardia um passado fincado na tríade que acometia 11 entre 10: sdrr - e não foi pouco não! Quando conseguiu juntar $ e ir para Woodstock, em 1969, e para Iacanga - Festival de Águas Claras - em meados da década dos 70, fritou em todas as apresentações e fez sexo em uma época que não havia Aids e que bastava a penicilina para tratar sífilis e afins...

Hoje não. É só café mesmo - e dos fortes!
"Não tenho nada com isto nem vem falar", só para citar a música que tem ouvido quase à exaustão pelos longos corredores do grande sobrado - que sim, é no Bexiga, colado à Praça 14 Bis. Perto do Carnaval o pedaço ali ferve de samba e negros e negras e brancos e gringos tentando assemelharem-se minimamente que seja com o gingado dos brasileiros.
Mas ele não tem nada com isto - e logicamente que ele nem se daria ao trabalho de explicar para quem quer que fosse.


Pela sacada do andar de cima, ele toma um bourbon americano, de milho, seu preferido, e percebe a vida passar pela manhã de hoje toda distorcida, fantasiosa, vendo todas as pessoas nuas que passam pela rua de pouco movimento; lembra-se das orgias que participou nos festivais e nos becos das bocas do lixo que existiam na São Paulo anos e anos atrás. Tira sua cueca e fica nu sentado em uma confortável cadeira. Mais uma dose e é claro que ele é assim: vontade de sair pelado pela rua, ereto com vigor.

"Se pelo menos eu tivesse uns 40 anos menos, ou 30 anos... Talvez 20 já ajudassem nesta coisa toda. Eu deveria ter feito antes". As pessoas continuam passando peladas e agora acenam para ele descer e se mostrar. A garrafa continua sendo consumida até ele resolver se deitar no chão limpíssimo da sacada. Dorme do jeito que estava antes.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

VIAGEM CCXI - AINDA OS ERROS

errado
(o mesmo erro)
erro
(de novo errei)
erratum
(seria apenas um?)
errata
(não, claro que não: há vários)
errôneo
(caminho tortuoso este que escolhi)
errático
(feito um peripatético andante descontrolado)
e nada de imputar aos outros - quaisquer que sejam -, ou à vida - esta 
doce/amarga vida - que
tanto ajuda
atrapalha no andar de cada dis
mais erros
mas são dos mesmos erros comentidos
desde algum tempo
e porque não tento os novos?
deve haver muitos deles para serem encontrados e agarrados
e finalmente, cometidos;
por precaução, por medo (ou por coragem?) é melhor viver com eles
com alguns deles - os tais antigos
melhor os antigos, velhos - antiquíssimos conhecidos -, repeti-los à exuastão
porque o tratamento é conhecido...
ou um novo: desconhecido, temerário e que sabe-se lá como serão tratados?
(raiva pelo mesmo ou medo pelo novo?)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

VIAGEM CCX - OS ERROS

os erros que se somam
e que nunca somem
sugando os melhores anos
deste sujeito que escreve
transcreve
mas não prescreve receita nenhuma
meandros
mais tantos meandros dos erros labirínticos
que insistem em aparecer
onde quer quer esteja
cinzas
pó, ácaros, fuligem
tudo junto remetem aos erros do passado
que hoje são
pó
cinzas
uma imundície só
guardadas naquela gaveta
feita de chumbo
como foi o grande erros - pesado, grande e
expansivo
...
os erros que se somam
devem sumir, feito fantasmas 
que aparecem em plena luz do dia
quanta insistência!
vá embora!

domingo, 28 de setembro de 2014

VIAGEM CCIX - ELE ESCOLHE O SONO

Reprodução [endereço abaixo]
ganhar mais,
gastar mais,
diversão,
gente, livros
músicas que dançam
músicas que nos fazem
olhar para dentro,
selecionar, o que?
poucas coisas e
são aquelas atávicas;
escolheria dormir 
as 8 horas de sono, 
ininterruptamente, 
como antes
sem acordar para
beber água
ao banheiro
comer algo leve
Seleção - sono
como fora antes e que agora não é mais
tempos e tempos
cigarro
uísque
anseios, expectativas, (e estresses?)
e talvez então...
apneia 
luz azul da luminária
olho no telefone
lá pelas 3h da madrugada
da semana que se inicia
mais uma
e do ano que já está no final
nos estertores de vigília? sempre preocupando-se desde sei lá quando?
como agora?
as contas
o amor rompido
a roupa que não vai secar
pela umidade
tudo isto promete
o sono!
aquele que fazia esquecer todo o resto
um tempo de proveitos aproveitados
só dele
sim, a escolha são horas
e mais horas
em uma miríade de sonhos
(o último será lembrado)
ressonando...

http://www.ctvnews.ca/health/melbourne-residents-get-most-sleep-stockholm-dwellers-most-active-jawbone-analysis-1.1965884

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

VIAGEM CCVIII - EU OU VOCÊ?

Branco ou preto?
Mar ou rio?
Oceano ou lago?
Verão ou inverno?
Ano Novo ou Natal?
Sexo ou foda?
Oral ou penetração?
Molhado ou seco?
Grande ou maior?
Jovem ou velho?
Montanha ou areia?
Inglês ou espanhol?
Casa ou apartamento?
Sobrado ou dúplex?
Marx ou Friedman?
Guerra ou paz?

E quantas mais decisões ou falta delas?

Verdade ou mentira?
Cinema ou teatro?
Massa ou churrasco?
Futebol ou rúgbi
Livro ou e-book?
Machado ou Eça?
São Paulo ou Buenos Aires?
Roma ou Paris?
Amazônia ou Cerrado?
Lacan ou Freud?
Moda ou desleixo?
Cachorro ou gato?
Europa ou Ásia?
Ímpar ou par?
Século XXI ou século XX?

E por fim:
Eu ou você?
(para esta a resposta vem rápida: nós)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

VIAGEM CCVII - SÃO PAULO MAIS UMA VEZ

Reprodução [endereço abaixo]
Um exemplo que mais uma vez se ama em São Paulo(ou que se pode amar).

"Por aqui ainda se ama e todas as formas possíveis, de todas as pessoas e somos milhões. A recuperação também passa por aqui da maneira mais sóbria - porém severa - para que, em resiliência absoluta e pura, você se torne mais forte do que da última vez.

Andanças pelos tantos cantos da mancha urbana- mal cantada por muitos praianos que desentendem e nunca entenderam a dinâmica da metrópole do hemisfério sul. Não entendem de nada e entendem aquilo somente que os olhos veem como sendo a beleza derramada, posta ali para que qualquer um visse.

Por aqui é diferente. E quem é diferente - e há homens e mulheres que de alguma forma fogem ao padrão - pode ver e se sujeitar e se mesclar e se tornar único; padrões variados são resumos explícitos de São Paulo.

Ele tem 40 anos - um pouco mais, quase 45. Branco, mora no Centro. Igual a tantos outros que existem encarapitados cada vez mais nas alturas, 27 andar de um prédio dos anos 90, em estilo moderno (ou pelo menos não antigo!), sozinho, em um apartamento de dois quartos amplos. Mais forte do que antes, ele aprendeu bem com a cidade e a ama como ele amou algumas vezes em sua vida. 

E decidiu por estes dias que teria que haver uma vez mais. Até quando quisesse e descobrisse um par também que se dispusesse. Porque melodrama não se encaixa à perfeição nele. Bem... Talvez um pouco sim, afinal todos os seres deste chão encaixam-se em um melodrama que pode fazer jus, ou diríamos, inveja nas melhoras novelas mexicanas desde que existem.

Vergonha? Desavergonhadamente explícito o que acontece para os homens e mulheres, com as possibilidades entrecruzadas, críveis e que às vezes parecem se tornar impossíveis de realizar. Mais quantas vezes poderemos amar e ser amados pelos quilômetros quadrados, viadutos, saídas de avenidas, marginais, terrenos e aqui dentro?".

Desistir por aqui é coisa que pouco vale: há tanta gente que logo, logo seu lugar será ocupado por outro com mais veemência e gana. Mas gana ele ainda tem, sobremaneira, de sobra - vale dizer que o seu trabalho ajuda na disposição.Esta urbe se criou na adversidade, nas serras da dificuldade trazendo uma temperança que poucas vezes ele viu em outras de similar tamanho. 

Resiliência ajustada à citada temperança se coadunam ao espírito 'mais uma vez' de São Paulo - permissão garantida a novas investidas que possibilitam novos afazeres -, relação direta com o amor visceral que aquele último beijo tangeu sua boca e que permanece igual ao touro que ele é. 
São Paulo, mais uma vez São Paulo!".  

http://combocultural.blogspot.com.br/

sábado, 13 de setembro de 2014

NÚMEROS DO BRASIL

Área total-
8.515.767 km²
a) por regiões (km²/%)
Norte- 3.853.677/45,25
Centro Oeste- 1.606.403/18,86
Nordeste- 1.554.292/18,25
Sudeste- 924.621/10,86
Sul- 576.774/6,77


Distâncias:
a) norte-sul- 4.403 km
Nascente do Rio Ailã (Uiramutã - RR)/Arroio Chuí (Santa Vitória do Palmar - RS)
b) leste-oeste- 4.326 km
Ponta do Seixas (João Pessoa - PB)/Nascente do Rio Moa (Mâncio Lima)
c) litoral- 7.367 km 
Norte (Cabo Orange-Oiapoque - AP)/Sul (Arroio Chuí Santa vitória do Palmar - RS)

Ponto Culminante-
Pico da Neblina- 2.993,8 m
(Serra do Imeri, Santa Isabel do Rio Negro - AM)

Número de municípios
5.570
a) por regiões
NE- 1.794
SE- 1.668
S- 1.191
CO- 467
N- 450

b) por UFs (5 >es)

MG- 853
SP- 645
RS- 497
BA- 417
PR- 399

População (ano)/hab/km²
190.755.799 (2010c)/22,43
202.768.562 (2014e)/23,81

sábado, 6 de setembro de 2014

VIAGEM CCVI - HISTÓRIAS DOS 12 (MILHÕES)

Quantas pessoas por metro quadrado cabem nos metros de São Paulo? Aquele metro quadrado de Itaquera, de Moema, do Grajaú, da Pompeia e de todos os metros... Dos mais caros da Berrini aos mais baratos - estes mais espalhados pela vasta cidade que contempla uma mancha urbana de tamanho maior no Brasil?

Não sei quantas pessoas cabem. Mas... E quantas histórias dos quase 12 milhões que habitam, esta que é um dos principais do mundo, cabem por aqui? 
Ora, por aqui pode ser aí em seu computador onde se pode viajar sem tirar os pés do seu chão que também não sei quantos metros quadrados você detém. Sei das minhas histórias e sei mais ainda que não são poucas e que com passar dos anos - décadas- só fazem aumentar parecendo mesmo que não caberão neste que escreve.

Quantas histórias? De terror e de medo, de vida e de morte, de alegria e de felicidade, de drogas, de sexo, de amor e de andanças.  Elas se misturam de maneira que ficam tão intrincadas que por vezes não sabemos se apenas são minhas, suas... Acho que algumas são nossas porque, afinal, ilha não somos. Somos um grande território que pode ser voraz e que cobra a intensidade de vida que, plena ou não, resiste e reside em cada uma das histórias que - verdade - não sei quantificar. Provável que nunca saberei.

Quantas histórias? dos 12 milhões? Aquelas que se perderam ficando esquecidas por não terem sido "conseguidas" tornar-se-ão nada nem mesmo vagando em alguma sinapse perdida nos meandros da sua cabeça - com ou sem drogas. Ou aquelas, que por alguma maneira, seguiram em frente permeando de felicidade seus 'donos'; trazendo vida e modificando-as. Porque a mudança é mister que se faça quando os ventos levam-nos a sempre um mesmo lugar.

Pela mancha urbana formada por tantas construções, asfalto, subterrâneos caminhos, ícones da altura, nossas histórias também tentam vingar. Todos os dias da mais moderna metrópole destes confins de sul-americanos. Eu tento vingar e digo que existe apenas esta forma para a minha história poder ser mudada ao meu sabor.