quarta-feira, 4 de julho de 2018

75] CENÁRIO SP - OPIOIDES E OUTROS AMORES

Arquivo pessoal - Avenida Paulista, São Paulo-SP
Drogas, mais um pouco de drogas e a poção vai além do acerto: chega mesmo à perfeição - e ele, tão afeito em se aperfeiçoar só podia mesmo aceitar e abraçar todos os efeitos em sua mente;
que mente, vale dizer, a todo e qualquer custo para si próprio. 

"Minha mente mente,sempre", repetia à exaustão feito um mantra hindu (nunca fora à Índia), que poderia ser um daqueles para tanger algo na cabeça - para que esta, então, logre êxito em conseguir (sabe-se lá o quê?)... 

Acostumou-se à mentira, no corre-corre danado na Pauliceia
Receita de um opioide, talvez?
Para amortecer, para amenizar, para adormecer...
Longe, tão longe daqui, de você e de tudo.

Porém Essepê já é longe, muito ao sul, naquele trópico imaginário que corta a cidade da dúzia de milhões, de superlativos números, índices e amores.
Imaginário, é isto?

Imaginando o ópio vindo lá do Laos, quiçá de Mianmar, ou ainda dos juvenis talibãs no Himalaia afegão, consome-o vorazmente. Sintetizado tudinho, com cuidado, sem exageros...

Porque?
Sua mente que mente com aquele constância veemente;
ele é qualquer um de nós, que luta, que sente, que vive.

Lutas, batalhas e guerras: ah, quantas coisas para a "pobre" mente que mente
na cidade que, às escâncaras, grita a verdade, lhe rompe os tímpanos e...
então, no esconderijo de seu quarto, na grande cama, contorce-se e
poê-se a imaginar a verdade do amor...

Que só ele vê passar, sorrir e seguir - ele não é visto.
então, a mente mente sobre tais amores... 
Opioides arrefecem a verdade de ser invisível: é um outro tipo de amor em São Paulo.

domingo, 1 de julho de 2018

VIAGEM CCCXXXVII - EXPLOSÃO CANHOTA

Arq. pessoal - Estação do metrô/São Paulo
quando vê passando, treme por total
igual vara verde em ventania de agosto

(não se quebra e sim se dobra diante do colírio,
vira-se, contorce-se para ver o andar pelas costas,

para ver o remelexo, o jeans a apertar, 
pulsa, impulsiona e enrijece...)

e o amor personificado - confiante, sorridente, igual bilhete premiado - passa,
vai-se embora; e ele? 

perfume, suor, hálito em um frêmito de narinas febris 
só escuta aquela voz, só olha  enxerga mais do que vê... 

quisera ele sentir no paladar aquele corpo
e tateá-lo em reentrâncias;

E o amor personificado? vai-se toda vez, todo hora, todo dia...
E ele? Só rastreio seu cheiro,

alargando-se, na (vã?) tentativa de captar seu corpo
tanta intimidação, que se recolho

quando se recolhe parece que vai explodir
pelo tamanho megalítico do desejo, de mais desejo,

pela perda do juízo, do compromisso,
da hora, "pela perda da vida";

auto-explora por mãos incansáveis e doídas de cansado
cansa-se toda vez desta explosão canhota...

e a repete, repete e repete - única alternativa 
diante daquela confiança todo exibida e amostrada 

terça-feira, 26 de junho de 2018

VIAGEM CCCXXXVI - MARTES E ANTARES

Foto de arq. pes./Ed. Altino Arantes, Centro SP
em lares ou em bares?

mares, quiçá? 


Como o tonitroante Tritão e seu tridente, comandando as marés?


antes de matares a tríade formada por nós e pelo amor


primeiro o vazio, rotundo, 


redondo e revolto a entranhar e


a consumir a periférica saúde deste cérebro


coalhado de baciadas de tristezas...


restringia-se às noites mal dormidas...


ruminava, ruminava e por vezes desejava estar feito féretro dentro de um rabecão.


em escassos momentos de sussurros de sono,


imaginou onde estaria


em quais bares a comemorar?


em quais mares a sobrevoar?


atlânticos, índicos, porém serão pacíficos?


em glaciares da Groenlândia?


quebrando a robustez de pedra de gelo que sobrara em sua mãos


em quais terra perseverar a procurar?


no ramerrame de Rangum? 


em costumeiros porres homéricos de blue Curaçao.


onde mais procurar?


em tragédias como Treblinka, onde toda a gente foi trocada por nada?


Em bilhares do Baixo Augusta?


Encaçapando bolas aleatórias pela São Paulo de Piratininga?


cansaço irreparável ele sentiu depois de tudo...


pela rede, desistiu de achar, 


procrastinou para não parar de procurar


mas tanto cansou em uma hora, que se estabacou ao chão permeando


em meandros de insondáveis Minotauro, em miríades de  


rastros irremovíveis, rumores de rouquidão e a prostração geral


primeiro, como vetores anti Marte e ante Antares, desabriu pelo céu


caindo em uma briga que parecera Mercúrio em frenesi de calores,


e enfim, derreteu-se...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

VIAGEM CCCXXXV - DANAÇÃO DE VIDA

Arquivo pessoal - Teatro Municipal, São Paulo
Demérito.

Desafiado pela vida.

Desancorado.

Disfarçado.

Desvalorizado.

Descarrilado.

Desancado fora.

Desgarrado do bem.

Demolido em pó.

Desmantelado.

Degenerado.

Desmascarado pelo mal.

Desgosto por ser decaído.

um Desatino desmedido.

Derreado por se desnudar.

Desacordado e segundos antes quase degolado.

Despedido e à deriva despistava todos.

Descabido e decepado de carinho mil.

Desenfreado de desamar. 

Desmistificado após tanto deturpar. 

Deleite zero; debilitado.

Delimitado.

Desabafado.

Despropósito em desmesurar.

Derradeiro e então... Decapitado (?).

Derrotado: decalcado na derrota.

Derramado e decepcionado.

Defenestrado e desconstruído.

Desencantado e decantado bem no fundo do copo.

Desgastado e dentado para comer e desdentado para rir.

Desarticulado e raucíssono.

Debochado.

Debruçado e desviado. Lá e já no primeiro dia, dequitado.

Danou-se por anos a fio.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

74] CENÁRIO SP - ESSEPÊ EM PÉ

Arquivo pessoal - Pátio do Colégio/SP
Caminham, andam, correm, nos céus de brigadeiros e nos nublados, por baixo da terra, pelas artérias avenidas e ruas. São Paulo fica em pé todo dia: 24, 7, 30, 365.

Andam pela casa dos 12 milhões. Quem podem ser? Ora, os personagens aqui da cidade de São Paulo, em todos os lugares, em todas as regiões, bairros, ruas e casas, apartamentos. 

Encarapitados subindo aos céus, ou demasiadamente esparramados pelos terrenos.

O corredor pelas pistas do Ibirapuera sua em bicas.
A executiva no escritório da Paulista trabalha diletantemente.

O engravatado apressado na Berrini faz contas.
A copeira com garrafas e mais garrafas de café em muitos lugares.

A professora nas EMEIs, pacientemente dando o seu melhor à pequena gente.
O motorista na linha Lapa-Ipiranga.

O skatista radical nas ladeiras da Vila Madalena.
Ciclistas pelas ciclovias paramentados para se fazerem notar.

Os DJs no Baixo Augusta tocam, tocam... Não se cansam nem ele, nem quem dança.
Taxistas 24 horas para a Vila Prudente, para a Vila Leopoldina, para Parelhereiros.

Sambistas de várias notas pelo Anhembi.
Em Jaçanã tem a mística de Adoniran, personagem ítalo-brasileiro que pôs Essepê em pé.

Roqueiros no Centro, passeiam pela Galeria do Rock.
A diversidade como personagem param na Parada na Paulista: sacodem e reverenciam o público.

O baiano é personagem e sua comida. O gaúcho é personagem com a bombacha na Paulista. O paraense é personagem "ao tacacá", e também o sertanejo goiano. Mineiro é personagem com a doçura no sotaque. 

Paulistas do Interior do Estado é tão personagem com a caipirice brejeira. Cariocas passeiam e (re)descobrem a Pauliceia e seus infinitos caminhos que não levam ao mar.

Paulistanos natos também vão. E vêm. E vão de novo pelo vão do MASP, mas não é em vão.
Eu, apenas um em meio à dúzia de milhões, vim há tantos anos, nunca pretendi domar Essepê. Porque a ele não se faz isto. Fiquei em pé e acompanho o ritmo. 

Essepê sempre em pé.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

VIAGEM CCCXXXIV - A VOZ DO BICHO-PAPÃO

Arquivo pessoal - São Paulo
as vozes amarravam-no dentro de si mesmo, dia e noite, noite e dia, de segunda a segunda, de janeiro a dezembro, desde a infância até... Bem, até agora, como veremos a seguir nestas linhas desconexas - texto feito pela sua vida de ouvir vozes do alto de não sabe de onde. Ele sempre achava que vinha de cima, mas não do céu: de cima da sua cabeça - do cocuruto. 

primeiro, lá trás, bem lá mesmo
infância, pelos 8 ou 9 anos
vozes vinham lhe sussurrar aos ouvidos quando ele ia para a escola, ali no antigo pré-primário, classe cheia, bagunça, corre-corre e vozes da criançada em alto tom. Esta, por sua vez não apagava a voz interior - ou exterior como ele julgou décadas passadas.

"hoje vai ser bem chato, bem mesmo; e todo dia será chato até daqui por fim da vida...
só você tem que ir porque senão você cai lá no fundo do poço com o bicho-papão, ele vai levar embora dentro de um saco. E sei lá pra onde. O que sei é que você não volta para sua casa e vai embora com ele. Também sei lá onde ele mora."
e ele ia, ouvindo, sozinho

ninguém mais ouvia pelos 2 quarteirões que separavam do grupo escolar - erguido em 1917, nome de ex-governador, todo pintado de um tom areia, muro hoje pichado por aqueles que se julgam sabe-se lá o quê; o tal prédio era tombado pelo valor arquitetônico - da velha casa construída em 1929: porão, assoalho e teto de madeira, quintal cachorro, portão de tramela simples, laranjeira e limoeiro que logo morreram e a jabuticabeira, forte e troncuda...
na cidade do interior, onde nascera, dezenas e dezenas e dezenas de quilômetros 
longe de São Paulo

de noite, quando ia dormir, olhava debaixo da cama e... Nada.
Nada da voz
nada de bicho-papão
deitava, então,m a cabeça loira de 4 olhos no travesseiro grande, tão grande
que cobria sua cabeça
e aí vinha a voz

"Dorme bem, dorme até amanhã e aproveita porque depois de grande
você quase não vai conseguir. Mesmo que consiga, não vai poder"

ele não entendi porque não podia dormir quando ficasse grande
via seus irmãos maiores dormirem horas e horas

"Agora, vou cantar uma daquelas cantigas para você dormir e pra dormir logo
porque amanhã tem prova de matemática e seu professor não gosta de menino que se atrasa
e você sabe, antes de dar a bronca, ele tira os óculos e fica os limpando com aquele lenço encardido"

E cantarolava como ninguém havia feito em toda a sua vida.. De nove anos.
Dormia a sono solto, talvez com a companhia - única - do bicho papão... Pegou simpatia por ele, e aos anos mais tarde foi embora junto com o tal. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

73] CENÁRIO SP - O CORRE-CORRE NA PAULICEIA

Arquivo pessoal - Vale do Anhangabaú-São Paulo/SP
Um corre-corre danado. São Paulo, a antropofágica, a "trabalhadeira", a subestimada metrópole brasileira vive intensamente o corre-corre pelos 12 milhões. 

E a busca pode ser por vários, "n", motivos. Seguem pelos carros, pelos trilhos do metrô, do trem; seguem dentro dos ônibus. E pelas calçadas. Tudo para atingirem algum objetivo decente (alguns nem tanto...). 

O tal corre-corre começou mais cedo pra ele hoje. Desperto, muito desperto, ele olha ansiosamente para o telefone que insiste em não tocar, o que significa que a boa notícia ainda pode vir. Nas mãos um copo, dos grandes, de café preto sem açúcar: tudo para estar bem atento ao corre-corre paulistanos - e ele gosta muito.

Precisa logo de uma resposta para lhe salvar a vida, para abandonar a depressão, para ser o que sempre foi: um homem talhado ao trabalho à perfeição. Ele precisa e quer o corre-corre de todo santo dia: fá-lo vivo!

Mas e a ansiedade? O corre-corre é dentro também de sue corpo: o sangue me verdadeira corredeira, os neurônios se chocando: uns afirmando que tudo dará certo com a paciência com âncora; já outros mostrando que a espera não é um bom sinal. Só mesmo esperando para saber qual grupo terá razão.

Ansiedade toma conta. Boca seca, mesmo depois do café. Um leve descompasso no batimento cardíaco. Mas e o telefone? Nada vezes nada: imutável em seu "silêncio ensurdecedor". E uma dorzinha de quase nada. E pensa que deve ser a tal da válvula mitral dando algum retorno a ansiedade.

Mas ele aumenta. Muito. Sentado agora na sacada, em busca de um pouco de ar, ele já quase não respira. Em pé, porém por mais um segundo apenas. E cai ao chão, sentindo uma dor de peso em seu peito. Sente como se um caminhão tivesse sido posto em cima dele, dificultando sua respiração. Pedindo socorro ao resgate, uma outra ligação em espera: é aquela que ele tanto espera.

A cidade segue seu ritmo normal, tão a cara dele. A cidade vai pelo dia, adentrando em sua miríade de tantos afazeres. 

E ele? Ainda com o telefone à mão é resgatado. Sirene enlouquecida, curvas rápidas, arrancadas abruptas, e o corre-corre para salvar sua vida. Este sim o único que importa de verdade neste exato instante.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

VIAGEM CCCXXXIII - ACERTOS E ERROS

Arq. Pessoal - São Paulo/SP
Uma cura? 
O amor. E a amizade sincera. E um tanto de $.
Uma doença?
O preconceito. A imposição de uma verdade apenas. 

Um erro?
Muitos ao longo da vida. Vícios, insônia, não amar, não ser amado.
Um acerto?
Quando eu encontrei você.

Um puta erro?
A ingratidão.
Um puta acerto?
Meu resgate por você.

O normal?
Qualquer um de nós aqui nos 12 milhões de desvairados da Pauliceia.
O anormal?
Também existem muitos: espancadores dos mais frágeis. Ah, e especistas também. Racistas, misóginos, intolerantes, homofóbicos também são anormais.

Uma cidade?
São Paulo em primeiro. E pode ser onde você estiver: eu vou até lá.
Um rito?
Eu e você, pelas entranhas, pelos beijos, pelos pelos e pelos suores.

Uma sensação boa?
A tranquilidade de ver você dormir.
Uma sensação ruim?
A demora, a espera, a impaciência.

Um som?
Fácil: você rindo. Enche a casa.
Um gosto?
Do seu corpo. Tenho sede dele.

Uma expectativa?
Suas ideias, sua mente.
Uma certeza?
A inteligência que vem de você.

Um beijo?
Nas reentrâncias e protuberâncias suas. E nas minhas.
Uma cama?
Para dormirmos, para sonharmos, para nos socorrermos em um sono agitado.

Um pesadelo?
A distância forçada.
O pior pesadelo?
Sua morte.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

VIAGEM CCCXXXII - OS ABRAÇOS

Arquivo pessoal - Avenida Paulista/SP
Lembro-me bem, como se fora esta mesma noite. Ainda bem que não é...

"Acordei no meio da noite, não sabia na hora, celular ainda carregando no criado-mudo, cego por um átimo, sintonizado em uma rádio on-line que tocava... Tateei, silenciosas 2h52.

Era eu mesmo, um quarto qualquer, em uma rua qualquer, cidade de quaisquer 12 milhões, a música, tudo parado, eu e apenas eu.
Eu ali, em repouso, tive medo do pesadelo da realidade, do dia a dia, da força de estar parado.

Empapuçado pela noite de calor que fazia, dezembro, fim de primavera/início de verão, o calor dos trópicos, suor, nudez nos lençóis. 
O ar abafado, ferro de passar roupa na cama tamanho calor que sentia, tirei a camiseta, a cueca, e fiquei inerte, parado.

Pela fresta da janela a luz mortiça de uma lua minguante, fixei-me lá e pensei que o ar deveria estar mais fresco.
Denso, abraçado em mim, fazendo mais quente, na solidão.

Pela rua do distante bairro, nada de vozes, madrugada.
Pela casa, só ele mesmo, imóvel, quieto, também pela madrugada.
Suspiro aqui, ressonando um pouco.

Suor pelo corpo, música baixinho, baixinho um travesseiro abraçado, outro na nuca e o olhos fitados em direção à janela. Anos 70 eu julguei, 'abraço a tua ausência', demorei para descobrir, na verdade de um pouco antes.

Estalei os dedos dos pés, sem me manusear, pra baixo, para cima.
"Comecei', meu corpo desperto, coço aqui, mexo nele ali, sede, água gelada goela abaixo, garrafa ao alcance da mão.

Toda ela, até o fim, térmica, trincando, estômago cheio, barulho de água dentro, sôfrego. Algo eu tinha que fazer, 1/2 litro, preencheu-me um vazio.

Calor que abraçava meu corpo! 
Mesmo nu, por aquela noite tive receio de permanecer insone, repetência de alguns dias, teve um dia que me levantei e tomei banho. 'Mas não hoje' pensei, a música, o tempo, este era o nome, 'não era?'

No quase silêncio, entristeci-me e arrisquei umas lágrimas, poucas, silenciosas, as de sempre desde... Desde... Disto não quis me lembrar.
Salguei-me mais, o calor, o suor, o choro leve.

Fiquei um tempo, não sabia quanto.

Viro de lado, do outro, inverto, pés e cabeça, lembrei-me de nós por aqui mesmo.
Em outros verões, cama quente, caíamos ao chão, esfregávamos-nos sem parar.

O luar se foi, vi nuvens, um ventinho gentil se precipitou.
De repente, o vento ficou mais forte, mais forte, rangidos na janela.

Arrepio, pelos eriçados, saudade. Saudade!
Vento que abraçava, um sono vindo, levinho, levinho, última vez, 5h07, eu e as horas ainda abraçados pelo silêncio.

sábado, 9 de setembro de 2017

72] CENÁRIO SP - O ATAQUE DO LADO DEBAIXO DO EQUADOR

Arquivo pessoal, Bela Vista-São Paulo
Àquela hora do dia de intensa movimentação nas ruas e calçadas a chuva veio para compor ainda mais o ambiente de fim de tarde. Meio fora de hora, pelo menos na intensidade, porque caía forte e pesada em uma época de chuvas magras. 

Para não se molhar porque havia esquecido o guarda-chuva no metrô, ele acabara de entrar no grande shopping recém reformado, ali mesmo no Paraíso, perto de sua casa. A intenção era passar um tempo até a chuva ir embora.

Pensou então em um café que deveria ser, obrigatoriamente, do tipo expresso - sempre segunda opção porque gostava mesmo do coado. Mas mesmo assim, resolveu sentar na confortável poltrona, amargar suas papilas gustativas e ver o movimento na praça de alimentação. 

Subiu três andares pelas rolantes escadas sem pressa alguma e por fim chegou na cafetaria que ficava ao lado de uma chocolateria estrangeira, belga ele supôs. Conseguiu uma mesa estratégica, de canto, que lhe permitia ver os outros restaurantes e "espiar" quem entrava e quem saía. O cheiro misturado de pó de café com chocolate gelado fez grande bem ao seu cérebro, já cansado do dia extenuante na produtora de vídeo.

Local quase lotado com muitos tipos diferentes em um espaço democrático que prezava por esta questão. Casais de mãos dadas, carinhos e afagos sem ter fim; casais formados por sexos opostos e, pela tal democracia mais travestida em diversidade, casais de pessoas do mesmo sexo. E um grande número de adolescentes barulhentos. Claro, os rapazes e moças da segurança com as roupas pretas - característica básica.

Tudo pronto: café com açúcar (pouco, é verdade) - "dança sem par" - e uma garrafa d'água quase congelada. Alternar o gelado com o quente podia fazer um tanto mal ao esmalte de seus dentes, porém lhe dava um prazer de gosto incomparável e assim o fez, lentamente, só observando tudo e a todos em volta. E olha que "os todos" tornara-se em número maior, talvez em decorrência da chuva. Parece que era mais que uma tempestade de verão longe do verão.

E fortes tempestades acontecem com frequência mesmo aqui na cidade do Trópico de Capricórnio, do lado debaixo do Equador. E parece que cada vez mais e com maior intensidade; pensou, quando levou a xícara à boca que é até tranquilo a questão de desastres naturais na Pauliceia: terremotos, maremotos, furações e o escambau não vicejam por aqui. E mais: ele gostava muito das tais chuvas quase de verão.

E foi então que aconteceu. Em um átimo, a correria para lá e para cá. Gente se trombando, criança chorando, uma senhora caindo ao chão e barulhos de disparos vindo de sua esquerda. Um casal hispter todo ensanguentado; uma mãe com seu bebê no colo que chorava desgraçadamente; duas senhoras se amparando mutuamente. Telefones gravando e filmando tudo.

Os tiros, que ele conseguiu contar, foram uns 7 ou 8... Podem ter sido 10. Pensando nisto e já em pé com olhos, ouvidos, braços para lutar se for preciso e pernas - ah, sim as pernas - já de plantão para correr se tivesse que ser, passa na frente dele 2 homens vestidos e cobertos dos pés à cabeça no que mais pareciam ser como aqueles radicais islâmicos. E eram! Saíram gritando em árabe frases soltas pelo ar. Minutos de tensão!

Um barulho seco perto dele: ele se vira e vê alguns corpos ao chão, inertes e "a sorte" de ver também um funcionário do restaurante ao lado cair pertinho dele ainda tentando segurar suas entranhas que insistiam em se desmilinguir para fora. O último olhar foi de um pedido extremado de ajuda em direção a ele.

Descendo as escadas rolantes, os terroristas se deparam com a força tática e policial de elite embaixo e quando empunham novamente suas armas, atiradores postados alvejam e acertam bem no meio do coco de um deles e o outro no ombro. logo acima do coração. Dominados pelo brasileiros ao sul do Equador estes vindos dos infernos do Oriente Médio.

Pisoteamento, correria, gritos, crianças chorando, estilhaços pelo chão, sangue, pessoas ziguezagueando sem destino. 

Chorou em desespero. E continuou a chorar mais brandamente ao ajudar a amparar o pessoal que trabalhava na cafeteria. Um caos instalado aqui mesmo nos trópicos brasileiros. Em sua plenitude de até então pacifismo, a metrópole alfa do hemisfério, da paz antropofágica artístico-cultural, São Paulo, teria um câncer terrorista a espalhar o medo? 

Aqui, sob a linha do trópico?