sábado, 19 de agosto de 2017

VIAGEM CCCXXX - AGOSTO ALÉM DOS CLICHÊS

Arq. pessoal - Av. Lins de Vasconcelos, Aclimação-SP
Agosto, o mês do cachorro louco?
Louco de quê? Farinha, mato, crack, bala, doce? Humanos também espumam pela boca...

Agosto, mês do cão louco, reitero.
Reitero, desvencilhe-se de clichês...

Agosto na história do Brasil?
Os que se foram... Bem, eles se foram e história não escolhe mês.

Agosto, sexta-feira 13, mau agouro?
Que nada, besteira! Este ano nada de 'caimento' de data assim. Só bons augúrios.

Agosto, mês do desgosto?
Desgostoso sem motivo sério; e desgosto mesmo é não ter $, o resto é só o resto.

Vacina na cachorrada?
Verdade, como em qualquer outro. A campanha apenas se intensifica.

Leão?
Muito egocêntrico.

Leão, insisto, quase o todo de agosto
Ego gritando, insisto. Muito senso comum.

Virgem?
Voragem, viagem e vertigem. E análises.

Augusto?
O Otaviano Augusto de agosto, é claro. Exemplo bom pra o oitavo.

Casamentos poucos?
O meu sim. O dos outros impossível responder: não sei.

31 dias?
Sim! Todos eles, para durar mais.

Agosto, frio, agosto de  vento?
Ao seu gosto... Sim. Vento e mais vento. E frio na medida para São Paulo

Agosto seco? Aridez?
Molhado neste ano e úmido e garoa e chuva e fora do estereótipo

Agosto, você gosta?
Gosto de agosto, ao meu gosto é o mês do ano: fora da curva, estigmatizado, invernal, envolto em superstições e etc

Gosta muito?
De agosto? Demais! O mês que vai, como nenhum outro, bater de frente com os clichês montados pela história dos homens.

Agosto... Nós?
Só nós. Faz de conta que São Paulo tem somente dois habitantes no frio de agosto.

domingo, 13 de agosto de 2017

VIAGEM CCCXXIX - RAZÕES PARA AJEITAR A VIDA

Arquivo pessoal - Bela Vista, São Paulo
Tudo para ele nesta vida, ou como ele afirmava nesta "miserável vida" (e ria de esgar), dava-se para dar um jeito, que não era o famosos jeitinho brasileiro. Este último, ele mesmo abominava todos os subterfúgios para se dar bem decorrentes destes arranjos e não que era o cara mais honesto do mundo, pretensão descabida e impraticável.
---- Não existe mais honesto  ou menos honesto, correto?  

E como ele quase sempre conseguia dar um jeito em tudo, se transformara no cara que mal-humor, amargura e rancor não o possuíssem. 
Podia ser no trabalho, no caminho para tal, na volta, em casa e na rua: sua lei primeira era não se exasperar.
---- Se o desespero tomar conta de sua cabeça você não consegue resolver nada. Digo mais: tudo vai piorar e um problema fica superdimensionado.

Reitere-se que ele o adjetivo "fodão" era aplicado a ele por estas características, apenas um detalhe: para ele esta aplicação era bem desgostosa. Por que? Bem... Porque, em primeiro lugar, achava-se um cara normal, destes que aos montes povoam o planetinha e, que, por isto, ele nem subiria neste "palanque" egoico para sambar na cara da tradicional família brasileira.
---- Sou um cara na média. Normal, mas longe de ser tradicional.

Aí ele mencionava uma costumeira explicação: sua família estava no panteão dos paulistas quatrocentões, desde os 1700 e poucos. Os quatro sobrenomes escancaravam, faziam a tradição explícita aos outros. Havia a tradição na heráldica bandeirante, tão somente. Porque ele rompera com alguns parâmetros do tradicional família brasileira (e paulista, óbvio).
---- Nossa! Sem esta de ser conservador, careta e policial da vida alheia.  

Ele poderia dar 400 razões para fugir deste tradicionalismo: que não tinha nada a ver com os sobrenomes todos, porque ele fazia questão de assinar (G.R.C. B. de M.) na rubrica. Nada disto. Bastavam algumas para romper com o tradicionalismo vigente. E todas elas se referiam ao seu modo de viver a vida e como ele se dispunha a crer que tudo tinha jeito.
---- Morte? Verdade: só ela mesmo para bagunçar a existência de qualquer... E bagunçar a vida daqueles que ficam. Estes sofrem agonizantes de saudade. 

Metrô, porque não tinha carro; namoro aos 40, porque casar-se estava no fim da fila; pai solteiro, porque adotara um menino de 5 anos; sexualidade resolvida, porque aceitara-se gay; casa no Cambuci, porque nos Jardins era muito caro; de bem com a vida, porque ao trabalho ele dava apenas o que o trabalha merecia.

Tentativas seguidas de ser feliz, porque deixa-se abater pelas agruras - inúmeras - da vida quedava-se para fora de seus anseios. Conseguia sempre ser feliz? Claro que não, mas nem por isto se abatia: isto fazia com que ele, uma vez depois da outra, tentasse. Assim sua razão se desenvolveu

terça-feira, 8 de agosto de 2017

70] CENÁRIO SP - DA INSANIDADE À TRANQUILIDADE

Arq. pessoal - avenida Paulista/SP
vibrante, e noturna, e matinal,
esparramando-se como só São Paulo sabe fazer
superdimensionado problemas e soluções

habitantes encarapitados em milhões, uma dúzia deles,
metrópole-alfa, cidade do mundo, megalópole brasileira
sul-americana, do hemisfério Sul, Ocidental

passeios por lugares aqui perto, nunca percebidos
o interior e suas ruas largas de paralelepípedo
 as ruas estreitas centrais, históricas de tanta gente

as grandes construções, modernas caixas de vidro
reflexos, tantos reflexos pela cidade
expondo-a, desabrida, ofegante e adiante

sobrados dos anos 50, casas modernistas
terraços, sacadas, flores, pequenas árvores
caminhos retos, tortos, sinuosos serpenteando o chão

o trânsito, tantos carros
avenidas Paulista, 23 de Maio, 9 de Julho,
Rebouças, Bandeirantes, Radial Leste

cavocar, o grande tatu do metrô, 
leva e traz, passeios trabalhos, 
território debaixo da terra é livre e solto

cores de alegria, as sete delas, 
e mais o prata, o preto, o cinza
e o céu de inverno de um azul mesmo intenso

o dia, a noite, as gentes passeando e trabalhando
relações de intercurso aqui perto, aí perto, lá longe
e em todos os lugares paulistanos ofegantes e grunhindo

e então... ele se dispôs a escrever mais e mais para tentar sanar
o que?
e precisava sanar alguma na sua mente?

a loucura, o zumbido nos ouvidos, o corpo elétrico para lá e para cá
ansiedade, impaciência que sempre teve
no corpo frenético hoje o que ele quer é um pouco de descanso

na brisa gelada da manhã invernal
muniu-se de um grande copo de café, amargo, 
e de tão amargo, despertou suas papilas

e imediatamente começou a escrever
abriu 2, depois 3 arquivos no computador
e pela primeira vez escreveu diferentes assuntos

crônicas, contos, pequenos romances iniciados
ficcionais - e nisto era bem bom mesmo!
olha! como ele era bom em imaginar e pôr todo os neurônios a trabalhar

voraz, vorazmente digitou até os dedos não mais aguentarem
vastidão de fonemas e letras
veloz, terminou tudo antes mesmo do almoço

e deitando-se novamente, nu em pelo
sentiu o ar gelado a lhe percorrer o corpo, eriçando pelos
e sentiu mais: a saudade daquele corpo insano que tanto lhe trazia a...

tranquilidade de viver em meio aos 12 milhões

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VIAGEM CCCXXVIII - A DIFÍCIL DIGNIDADE DE SABER ESPERAR

Arq. pessoal - Pacaembu/São Paulo
Um silêncio antes da semana se iniciar, cedo, como convém aos que... Trabalham em procurar um novo emprego em épocas de crise. Murmura que "eu não criei esta crise, não desonerei empresários de imposto, nem roubei em empresa estatal... Só pago taxas e impostos que são tantos".

Deitado, esperando o telefone tocar, vindo do lado de baixo do Brasil: seu par, que, pelo novo emprego, ministrava curso em TI para novas lojas do complexo de linha branca vendida pela empresa. E sendo bem pago chefiando um departamento todo...

6h05 ainda nada.

Dispôs-se a pensar sobre gostos. E contragostos. Mantendo, entretanto, o vislumbre de otimismo que ainda tomava conta dele nestes tempos de crise perpetrada pelos poderosos políticos e empresários; decidira que não entraria em colapso depressivo por estar desempregado, como acontecera em todas as oportunidades.

Dignidade, para ele, se relacionava em intercurso carnal com estar trabalhando/pagandocontas/saldo; e ser digno de ganhar um salário razoável. Ganância? Lacuna deixada em branco. Ambição? Um pouco, tão somente. 

"Sou mesmo um pequeno-burguês. No lugar em sonhar ganhar um salário de R$ 30 mil talvez por mês... Mas não! Qualquer R$ 5 mil já ia me fazer feliz. Acho que falta um tiquinho de ganância, uma voraz ganância. Só que não sou assim".

6h15, ainda na espera.

"Gosto de $ de um tanto que eu não me perca em contas no fim do mês; se tiver uma sobra eu acho é bem bom
E gosto de tantas coisas. Podia fazer uma lista... Das grandes

Dignidade é olhar no mesmo nível dos olhos dos outros
Altivez é isto: nem menos, nem mais que ninguém neste mundo
Trabalho justo e pago devidamente por esta justiça

Ansiedade desgosto muito: fico aqui, deitado, me tocando, lembrando-me de você e nada do celular tocar me fazendo esperar
Manhã na cama sozinho? Nem preciso dizer

Café preto com você? Pode ser em qualquer hora: eu gosto
Ouvir você gritando da cozinha 'açúcar hoje ou adoçante' com sua voz tonitroante a reverberar pelo apartamento? 
Ah, eu gosto! Só para te responder: adivinha?

Saudade de você. Saudade do meu último emprego. Saudade de ligar pra você na sexta à noite e ir àquele rodízio que tanto gosta só para lhe ver comer com satisfação... Beber uns dois ou três chopes juntos... Carne, muita carne. E eu vegetais juntos, muitos vegetais...

Ah, que pequeno-burguês mais paulista da periferia eu sou , não é? Deveria sonhar para alcançar grandes lucros, ser mais agressivo, pensar mais em como me dar bem.
Mas isto não é dignidade. É vilania pura em altas doses...".

6h33
Telefone, enfim, tocou. Era você me dizendo bom dia e que logo mais à noite estaríamos juntos. Com um convite para passarmos juntos à noite toda, só nós. Agora vou levantar e inciar meu dia de matar a tristeza do desemprego".

Dignidade ele tinha, sempre tivera. Talvez, com clareza, faltasse um pouco mais de ambição agressiva - assertiva, para usar algo mais palatável - para nunca mais cair nesta situação de ter que contar com ajuda de $ vindo do seu amor, da cumplicidade que mantinham e do cuidarem de si. 

Dignidade era mesmo se manter com seu próprio sustento, força, seu pés; saber esperar dignamente sem o apelo do canto de sereia em se perder nas tentativas. O amor está em outro patamar. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

69] CENÁRIO SP - SORRISO: A VELHA CHAGA

Arq. Pessoal/ Pacaembu, São Paulo
Mais um daqueles escritos sob o manto da tranquilidade; conquistada que foi depois de muito esforço, com afinco canino... Sobre humano pode-se dizer, como quase tudo na Pauliceia Desvairada.

"o sorriso, em vãs tentativas na maior parte da vida
logrou êxito algumas vezes da vida dele,
lá trás - infância - quase nada pela pouca lembrança

depois, na adolescência um pouco melhor que nada, 
mas os sorrisos que aconteceram foram intensos
vibrantes e espaçados quase à insanidade de não haver

veio a juventude - transtorno sem-fim!
provas exigidas, luta interna, fingimento para esquecer a derrota
loucuras realizadas pareciam um paliativo infantil para uma dor "de amputação"

e veio, então, a maturidade adulta... Lutas e mais lutas
aqui mesmo na grande cidade alfa, São Paulo
encontrou-se, viveu e ainda vive um tiquinho melhor

a perfuração, o martelo, o ferro, o tétano
pontiagudo que perfura, que maltrata, que demanda,
que é "imperium"...

onde as chagas são os espinhos na carne
de alguns que querem ditar - e ditam - por dias que ecoam
que reverberam pelos tempos idos e talvez pelos vindouros

o que deve ser feito
o que pode ser feito
como deve ser feito

para quem deve ser feito, 
onde e porque e quando...
é mesmo inferno na Terra

o $, a ganância, o desrespeito, a consideração que falta,
para isto tudo o sorriso é chaga que não se vence
que se verga, mas não se quebra

um horror para alguns (é a tal velha chaga da felicidade), 
tão solitários, outros como seus aduladores "coitadinhos"
que se nutrem, que se viciam, que se canibalizam

hoje, em um sorriso estampado na cara rosto barbudo, anguloso, 
pelas ruas de São Paulo em simbiose com sua cabeça,
com seu coração; tudo nele hoje sorri

sem desespero, sem histeria, sem estultices
apenas cometendo a velha chaga de sorrir
porque assim se pode levar uma vida com um tantinho a menos de dor

para os detratores, para os incentivadores da dominância
o sorriso é arma que não se vence
é chaga incurável"

terça-feira, 1 de agosto de 2017

VIAGEM CCCXXVII - "QUEM É LOUCO DE CRER NOS HOMENS?"

Arquivo pessoal - Aclimação, São Paulo
No começo, ele mantinha sonhos e vontades advindas para realizá-los; isto lá na virada dos 20 para os 30 anos. Empenhava-se em possíveis relacionamentos, aprendia a ouvir (hoje é o seu forte), dedicação para fazer dar certo e um sem-fim de outras atitudes que denotavam seu comportamento esperançoso.
Louco! Louco mais uma vez. Louco mesmo! 

Das barrancas do rio Paranapanema, veio morar em São Paulo logo completados seus 18 anos. Curso técnico em informática/processamento de dados. Dinheiro para tanto? Das poucas vezes que obtivera sorte nesta vida, foi desta vez: seu padrinho, vereador mais votado na cidade de 7 mil habitantes, deu-lhe de presente o tal curso e estadia paga em quarto de família por 12 meses, nos Campos Elísios. Anos depois se formou em uma faculdade em TI; pretende um dia fazer algum tipo de pós.

Ele mesmo julgara o presente, à época, exagerado; mais tarde, aliás, coisa de uns anos, descobrira que ele ganhara as despesas pagas para que o seu mentor pudesse se redimir do relacionamento com sua irmã logo que ela se casara com o próprio filho. E que ainda mantém; às expensas de ela estar hoje viúva, o caso é ainda não oficializado. Na cidade onde o tempo nunca passou tamanha modorra, rezam as línguas das candinhas de plantão que o marido se matou... E que foi de desgosto. 
Louco mesmo se matar por isto!

Hoje mantém um pequeno, porém próspero negócio - em que pese a crise que vem assolando o Brasil desde 2014 - e vê sua clientela aumentar mais e mais. E vive para isto, tão somente. Hoje o frescor da vida que só a esperança traz deixou de existir. Agora, passados quase dez anos, prestes a entrar nos "enta", ele é pragmático, severo com ele mesmo e trabalhador incansável.
Loucura?

"Loucura é crer em ser humano, porque dos que conheci não se salvou nenhum. Loucura é crer que eu manteria o tal frescor dos 20 e poucos. Loucura mesmo, e das boas, é ganhar $ e viver sem ninguém. E por fim, é loucura achar que eu sou melhor que os desacreditados seres humanos são para mim: eu também desacredito em minha capacidade de me relacionar.

"Loucura é achar que a felicidade está no corpo de outro ser", dizeres da grande placa instalada na entrada do seu estabelecimento, completado logo em embaixo em letras menores com "prefiro, portanto, manter-me são".

sábado, 29 de julho de 2017

VIAGEM CCCXXVI - UMA DOSE DIÁRIA DE "DEMÊNCIA"

Arq. pessoal - Avenida Paulista, São Paulo
---- Um demente, é isto o que ele é. Nem converso mais com ele. Só um idiota e demente para agir desta forma.
---- Por que motivo você diz isto?
---- Eu não digo. Eu reafirmo. Venho dizendo isto faz tempo já. Só mesmo quem é muito distraído, ou na melhor das hipóteses, só quem é muito ingênuo para não perceber. Por favor!
---- Tenho uma visão distinta. Diferente mesmo. Olha só, vou enumerar alguns itens...
---- Itens? Esta é boa. Combina bem com o cara ali. Veja só, que cara mais contente, sorridente. 
---- Bem, ele tem todos os dentes da boca. Branquíssimos. Boa arcada. Barba distraidamente bem feita. Então, no caso dele, sorrir é um ponto a mais, não a menos.

Cara de fastio e um muxoxo ininteligível ao ouvir a última afirmação rápida do interlocutor. Ambos miravam tudo o que o "demente" fazia, observavam cada gesto e cada atitude. Porém cada perspectiva era diametralmente diferenciada uma da outra; bem como as razões para tal perscrutação.

---- Os itens! Vamos a eles? Perceba: ele tem amigos, ele namora, mora em uma casa boa e própria. Tem dois livros lançados e foi convidado para participar da Semana de Estudos Literários em Língua Portuguesa.
---- Onde? Em Lisboa?
---- Aqui mesmo em São Paulo.
---- O demente está desamparadamente desempregado. Total demérito.
---- Aprendendo fonemas com "DE", "M", palavras grande? Destilando doses cavalares de desdém? Está vendo? Também sei lidar com os fonemas.

E riu. E viu-se uma cara feia para o algoz do demente. Ainda rindo, entre os dentes, praticamente gargalhando, o outro continua a história.
--- Desdém: é isto. Quanta inveja, não é? E parece que você vem alimentando dia após dia este sentimento que deve amargar sua existência. Percebe que fazendo isto você se diminui aos olhos dele? 

---- Faz meses que ele está desempregado. E me falou que nem sabe se vai poder participar da 
organização da semana de estudos. Só mesmo um demente, bem longe da realidade, pode se julgar feliz estando nesta situação. Nem falo mais com ele.
---- Segunda vez que você fala que não fala mais com ele. Que vontade você deve ter de poder abraçá-lo de novo.

O outro pronto para responder diante da "fator abraço", mas o outro não deixa e continua.
---- Entendi tudo. Terminaram, quer dizer, ele terminou o que mal vocês haviam começado porque sua carga de negatividade enfraquece qualquer relacionamento. E você ainda gosta dele.

De raiva, o outro começa a chorar em meio à verdade que acabara de ouvir.
---- Porque se amargar diariamente assim? Todo dia você se auto-medica bebendo apenas o amargo que a vida oferece? E olha que a vida oferece tantas coisas.

O outro chorando, tenta balbuciar algo. 
---- Eu ainda amo, ainda quero abraçar, quero ter por perto. Mas ele nem quer saber de mim. Irrita tanto esta felicidade demencial que ele tem.
---- Revelador. Tudo o que disse é muito revelador. Pare com as doses de amargura.

Comoveu-se com o pranto escancarado e abraça para tentar um alento, pequeno que fosse, para minorar todo aquele sentimento de desdém, misturado com querer, com tristeza. Compadeceu-se pela carga viral exacerbada de amargura que acabara de presenciar.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

68] CENÁRIO SP - O MUNDO NA GRANDE CIDADE

Arquivo pessoal - Prefeitura de São Paulo
as ruas, as avenidas e as marginais,

casas, prédios, gigantes edifícios,

a mancha de urbanidade adensada

gente, muita gente, mais de 12 milhões 

indo e voltando, parando e continuando

centro, norte, sul, oeste e leste

se cruzam, se medem, se fincam em divisas,

ele mesmo vai e volta para o seu "castelo"
(ora, e não é assim aqui em São Paulo: onde se mora é o seu castelo)

mas sem conotação de inatingível

o que é intangível é conhecer os milhões que aqui habitam

e ele, sedento de gente, tenta ao máximo alargar os números

pelo metrô que cavoca o subterrâneo

pelas faixas onde ciclistas rodam

pelos cafés a imaginar um café em dupla
(ou em trio, porque assim quer mais vezes experimentar)

em uma fria manhã de julho

em conexão wi-fi em algum lugar, sempre pedida, 

aplicativos "convenientemente" tresloucados

e exageradamente baixados

para quê?

para ver a gente da metrópole

para poder travar conhecimento

para poder tratar de sua vida tão ocupada com ele mesmo

porque aqui há tantos e ele não quer,

não deve e não pode se trancafiar no alto de seu castelo

encarapitar-se por lá e ver o mundo de cima

ele quer o mundo que cabe na desproporcional 

cidade mundial olhando-o de frente

quarta-feira, 19 de julho de 2017

VIAGEM CCCXXV - "O FRIO DÓI", ELE FALOU

Arq. pessoal - Teatro Municipal SP
Neste frio que anda fazendo na metrópole brasileira, São Paulo vem tirando do armário tanto capotes, agasalhos, lãs, couros, meias, segundas calças... E o armário fica quase que vazio. Já o armário de alguns, na pessoalidade, pode demorar mais a se esvaziar.

O que ele quer?Até escreveu estas linhas que seguem aqui embaixo, com um café bem quente logo pela manhã de frio, marcando 7°C. Frio, tanto frio assim?

"o frio dói, todo o corpo dói
músculos retesados
no torpor enregelado que faz a pele secar
os pelos eriçarem...

entorpecido, torto e trôpego, dirijo-me à cozinha
para tentar um alento com um copo de café quente,
recém-coado,
e assim esquentar minhas mãos

luvas para digitar? complica
cama vazia? entristece
meia e mais um par nos pés? não adiantam muito
edredons, três? minimiza o frio... Nada mais do que isto

a garoa de São Paulo? Compõe bem a cidade
é uma das mil caras dos desvarios paulistanos
o frio dói?
dói sim, mas a dor aqui dentro nem mesmo morando em...

Onde? Mercúrio!
Nem lá, perto do astro-rei esquentar-me-ia
ossos, extremidades, orelhas, 
até as partes recônditas, sofrem

e meu coração, tão escondidinho?
ah... Este se resfriou em demasia
Verões virão, mas o frio de dentro dele... 
Nunca mais o despossuirá"

segunda-feira, 17 de julho de 2017

VIAGEM CCCXXIV - A CIVILIZAÇÃO CORRE, MAS OLHA PARA TRÁS

Arq. pessoal - Teatro Municipal São Paulo
Displicentemente os pés desnudos balançavam por cima da janela do carro, aproveitando a leve brisa do verão paulistano, mais quente que o dos ano anteriores. Nas mãos um cigarro daqueles que se fuma escondido (será?), soltando longas baforadas densas e espalhando assim o cheiro a metros de distância. 

Sem preocupação de nada, sentido-se bem é tranquilo, ali ficou por todo o tempo apenas vendo o movimento de pessoas perto e, ocasionalmente, mexendo no celular.

Em um dado momento, estralou alguns dedos apenas movendo para baixo. Pôde-se ouvir o barulho, verdade. Sem camisa, que estava envolta na cabeça - decerto para a proteção após a corrida pelo parque, todo o nada que o tal fazia continuou a ser feito. 

E um que observava com atenção, achou que aquilo caracteriza um abuso, uma ousadia para com todos. Mentira: era uma ousadia para ele, porque fazer tudo isto de dia, postar-se assim dentro do carro, quase desnudo, os pés perdidos pelo ar... E a calça social dobrada até o joelho? Ora, tal cena tornar-se-ia inadmissível em qualquer lugar "civilizado desta cidade. Deste país!", pensou o ser coberto de inveja pela despreocupação do cara reclinado no banco dianteiro de seu carro.

Munido de sua civilidade e bons costumes regrados pela sua educação, foi lá... Ou melhor resolveu chegar mais perto, ficar por ali, fazer algum barulho, olhar feio, emfim algo que pudesse espantar o "dolce far niente" instalado em uma das saída do parque que dava para uma rua sem saída.

Eram quase 17h. Foi empedernido certo de sua vitória contra o mal-estar da civilização (julgava ser um freudiano; e o era, mas bem às avessas) encarnado por o homem que ainda balançava os grandes pés ao léu. Chegando lá foi surpreendido pelo tal ser, convidando-o a dividirem o cigarrinho artesanal com a pergunta feita em seguida:

---- Estava te olhando mesmo. Até achei que demorou para chegar aqui, ficou rodeando, olhando, encarando. Achei também, você interessante e quase fui falar com você. Mas estou com uma preguiça. A fim de fumar?

E sorriu exibindo um sorriso que o mundo deveria parar um pouco para ver, para contemplar.
O "civilizado ser" prestes a explodir pela ousadia estapeando sua cara, quedou-se estático por alguns segundos; em seguida estendeu a mão para quase pegar o cigarro. Quase.

Fora desarmado, virou as costas e "civilizadamente" amedrontado até o último pelo eriçado de seu corpo pela naturalidade do cara do carro, fugiu mesmo. Correu, mas olhou para trás duas vezes.

Para o que ficou tudo continuou do jeito que estava: calmaria, baforadas, balanços...