quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

VIAGEM CCCL - CALHAS E ESPELHOS

Arquivo pessoal - Piracicaba/SP
eles: sem falhas no aparelho de amar
batem 2, batem um ao outro e recostados...
eles se pilham em eletricidade pelo outro

o leite talha, azeda, esquecido à mesa
o namorado ralha,  com o esquecimento, 
mas se tolhe quando o outro se desculpa

se rasgam as malhas, vestes únicas, se molham
então, o brilhar daquela manhã se acerta
na trilha de amar...

todas as tralhas assolhadas ficarão,
ajoelhadas para amealhar atenção...
ele gargalha e farfalha pela respiração

e, então, ofega...
para a batalha ele se debulha
em lágrimas que se empalham
de engasgar, secas pela barba...

entulhos? aqueles separados para o lixo;
fagulhas? somente centelhas de frenesis;
mobilhas? só os de madeira maciça, resistentes;
humilha você a quem lhe ama?

retalhos se espalham em mim, em você;
molhados de amor um ao outro
agasalhos são falhos em corpos desnudos...
porque o mergulho em nós nos cala...

o amor se espelha, 
se espalha 
em calhas retas e duras...

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

VIAGEM CCCXLIX - O VENTO E A CALMA

Arquivo pessoal
"Vento uivando 

pelas frestas das janelas 

e portas fazendo uma alcateia de sons,

cercando-me por todos os lados:

uma tempestade vem vindo com nuvens

carregadas, plúmbeas e densas.

"Uma chuva de vento!", eu disse aliviado.

Fecham-se os leves vidros 

e batem seguidas vezes todas as pesadas portas.

Cortinas balançando em desvario; 

papéis flanando pelo espaço.

Fumaça subindo pelo ar na vertical.

Quadros dependurados se debatem

temendo a  gravidade da queda.

O ar úmido e frio envolve e me abraça: ventos

e mais ventos... 

Dia de ventania, 

prenuncio de calmaria na minha alma".

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

VIAGEM CCCXLVIII - NA CONTRAMÃO

Arquivo pessoal - Largo São Francisco, São Paulo

"de leve que é na contramão".
(Lulu Santos, verso de)

pelas ruas, avenidas, ruelas, travessas, autopistas e marginais
eu observo e babo, boquiaberto

ver você andar, remexendo que só os quadris, com um gingado para se perder se encontrar o caminho

pela contramão da vida,
pela contramão do status quo
contradizer o discurso dos caretas

este discurso sem piedade
sem arte, sem amor
sem sexo e sem você - não!

só me faz olhar mais
e procurar por um guardanapo para me recompor 
da baba sobre minha barba hirsuta a escorrer 

e você anda, e vai, e vem, e rebola, e remexe
e mexe com meu juízo tão sério
tão profissional que acaba por solapar toda a minha seriedade

você me arrasta pela contramão
para que a gente se encontre,
para que a gente transgrida

e perverta a seta de mão única
nada disto, nada desta gente rança! 
minha seta é só para você, só seguirmos em frente.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

VIAGEM CCCXLVII - O CAMPEÃO MAIS TRISTE

Arquivo pessoal - Piracicaba/SP
uma medalha de ouro no peito, nada novo
para quê tudo isto?

mas e dentro do coração: latão?
brilhante, vistosa, ganhadora: 

esta é a tal medalha,
exposta, pesada e valiosa...

ganhou como?
na corrida pela vida, pelo dinheiro, 

pela saúde e pela paz,
pelas amizades

(foi campeão com rodadas de antecedência no campeonato das décadas).

pelos amores sequer conseguiu classificar-se
entre os medianamente amorosos:

desclassificado em letras grandes e timbradas pela escola de uma vida
vivida sem ouros.

ele não sabia como ter o ouro dentro do coração,
até agora havia sido o medalhista campeão sagrado mais triste

mais triste ainda, depois de tanto agosto seguido,
porque nunca fora primeiro no coração de ninguém,

e o que era pior: nunca permitira que acontecesse 
este campeonato no qual jogam apenas dois

sem o terceiro, o juiz, sem a torcida,
somente dois, que lutariam por mais amor

mais compreensão
mais tesão

mais respeito
pois nunca perderiam - os dois ganhariam com o tal jogo

então, o campeão mais triste abandonaria o pódio solitário
de campeão absoluto

e desceria ao chão para ser feliz ao lado de alguém
sem que lhes importassem quem chegaria em primeiro lugar

terça-feira, 23 de julho de 2019

VIAGEM CCCXLVI - DANADOS DE AMOR

Arq. pessoal - Piracicaba/SP
danos colaterais
colados

dúvidas e dívidas
que não sanamos 

e que não nos pagamos

a dor dilapidando demais
desde daquela vez

e que dominou nossa relação

dor demais!
dor demais!

delegamos à raiva a nossa conduta

nunca dantes havíamos feito disso
a regência de nossas vidas

o tempo passou
saudade sentimos

em calor ardemos solitários
duradouro, percebemos, é nosso amor

apesar das dúvidas
das dívidas
das dores

porque é bálsamo benigno
ouvir nossas bocas dizerem belezas, carinhos e afetos

porque é frenesi em seguida
beijos pelo corpo

em protuberâncias e reentrâncias...

danados de amor somos um pelo outro
o outro por um!


quinta-feira, 18 de julho de 2019

80] CENÁRIO SP - TODO ENROLADO

Arq. pessoal - Vila Mariana/São Paulo
"eu aqui, enrolado em edredons pesados

sem roupa, de gorro meio remendado

enrolo-me em pensamentos no quarto grande

em um cheiro, rolo de amor que roça meu corpo

rouba a quietude
rouba de forma rota meu juízo

ao lado do criado-mudo
tudo enrolado

naquele papel vindo de Roma direto para São Paulo,
que só espera por nós

neste frio gélido de julho, a Pauliceia madruga com a garoa
cobrindo a vasta metrópole

o frio nem consegue roubar o tal calor
que sinto, que tenho, que quero em você

e eu insone, reto nas partes, rijo, enrolo-me ainda mais
e mais em você

que veio, viu e venceu as resistências
bem das esfarrapadas dadas por mim

quando você me disse
que era um ladrão, um ladrão que não rouba $, bens ou casa

"Roubo você", explicando em um pausado, mas sôfrego
e alterado em cada sílaba

ah, e eu enrolando
em cima

embaixo
pelos lados

pela fresta da janela, São Paulo me roubou o sono,
o vidro embaçado rouba uma visão do céu...

só não me roube você de mim
(porque estou sozinho, com saudade do calor que um roubava do outro)".

domingo, 23 de junho de 2019

VIAGEM CCCXLV - TODOS TENTAM TUDO

Arquivo pessoal - Pátio do Colégio/Sé, São Paulo
todos
tentam
tudo 
teimando
temerariamente;

todos
tremem
tanto 
tropeçando em
tramas;

todos
tentam
transas
trancadas e
toscas;

todos 
tentam
traumatizando e
tutelando
tradições;

todos tentam
tutores, tiras
técnicos, tradutores
telefonistas, tintureiros e
todos tateiam tentativas;

todos
tiritam
tristes
tipificando as
tolerâncias;

todos tentam tudo nas
tempestades nos
turbilhões nas
tramas trançadas e 
tolhidas tantas vezes;

todos
tentam tudo até as 
tampas e 
transbordam para então
titubearem;

todos 
tranquilos
transcorridos os
tempos de 
trajar tolices;

todos tentam 
tremular no 
tabuleiro da vida o
tônus tinto de tecnologia;

todos tentam tudo até
as tralhas e trastes...
poucos tentam a correção.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

VIAGEM CCCXLIV - UMA DOSE DE QUÊ?

Arquivo pessoal - Bela Vista, SP
Entrar ou não entrar no moderno bar recém aberto perto de sua casa, ali, colado à Praça 14 Bis? Véspera de feriadão, expediente já acabou e um tempo livre para esperar o par. 

Gente descolada, maurícios, patrícias, hispters, artistas engomados, neo-alguma coisa, ou seja, parte da modernidade paulistana concentrada naquele bar que tem dois pisos. Mais o térreo, é claro. Ou, como se diz em Portugal, dois pisos mais o rés-do-chão. 

Rum?
Gim?
Cachaça artesanal?
E a dor de cabeça, amanhã cedo? Deve ser feita lá em Piracicaba, terra do amor que ele tem e que espera para logo mais.

Cerveja?
Chopp?
Vodca?
Vai exalar a bebida russa pelos poros, logo pela manhã... Mesmo que seja uma legítima moscovita para beber no inverno paulistano (que deve ser um outono por lá, ele supõe).

Uísque?
Campari?
Vermute?
Do escocês ele gosta. Até um kilt ele tem; comprado em algum lugar perdido das Terras Altas. 

Caipirinha?
Caipirosca?
Martíni?
Doce, doce demais. Parece que amarra a boca. Será que veio do Caribe?

Champanhe?
Frisante?
Vinho?
Dá muita sede, mesmo sendo um autêntico do Porto.

Entra ou não entra? O chão quadriculado de preto e branco lhe lembra Congonhas, causando até mesmo uma empatia com o lugar. Mas as pessoas.... Em um olhar com mais acuidade lhe desperta uma certa antipatia. Gratuita.

Cigarro na mão; última tragada. Vira-se para jogar a bituca apagada no lixo e vê outro bar, dois imóveis depois do 'modernex' bar. Já gostou de imediato. Antigo, decoração retrô e gente normal, de todas as vertentes. A Babilônia com algum jardim suspenso na sacada do 2º piso. E tem mesmo!

---- Um uísque, do escocês mesmo. Naquele copo pequeno, sem gelo.

Tomou algumas várias doses esperando uma espera disfarçadamente paciente e, quando para ir embora, quem chega? 

---- Trouxe aquele corote de pinga lá de Pira. Aquele que você tomou no vizinho do meu padrinho. Levinha, levinha. Nem dá ressaca nem nada.

Cambaleante, trôpego, fazer o quatro nem pensar, o bafão de uísque, é abraçado e escorado até chegar à entrada do prédio onde mora.

---- Uma dose de quê vai ser?
---- De você mesmo. Quero tudo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

79] CENÁRIO SP - O CÃO, GOTAS QUE ESCORREM E A MENSAGEM

Arquivo pessoal - Piracicaba/SP
Logo pela manha cedo, ele acorda seu tutor, feliz e lépido. Preguicento que só vendo, ele lhe dá uns afagos e tapinhas na cabeça e diz bom dia no quase mais alto apartamento, prédio perto do icônico COPAN. Arfadas e ganidos fazem parte da arte do convencimento. Tem também a cara de cachorro sem dono: sempre funciona.  

"Vamos", ele pensa caninamente, "vamos logo. Quero ver o nosso vizinho, e ele já deve estar na rua, em frente à padaria, comendo e eu ainda aqui... Tenho tanta coisa a cheirar, a ver e claro, preciso muito de um alívio pro chamado da mãe natureza. Vamos! Por que não se levanta?".

Ele se levanta, direto ao banheiro, olha pela frestinha de luz da janela deixada aberta à noite que chove sem parcimônia em São Paulo, a Terra da Garoa. Gotas caem em profusão escorrendo. Os trovões se fazem acompanhar, até mesmo os raios; e então, um deles, de maneira a ensurdecer qualquer vivente, faz a energia cair. Ambos, no espaçoso apartamento, levam um susto  fazendo a respiração para por um instante. Irrompeu ao banheiro após, pois ele também precisa atender àquele chamado citado supra. 

Uma mensagem no celular, logo às 6h50, de um sábado que, segundo a previsão deveria ser de sol pela manhã; a chuva viria à tarde. Imagina que vai chover em volume de verão o dia todo e em sem parar em volume de inverno. A corrida e a caminhada pelo Ibirapuera fora cancelada pelo novo amigo (com alguns benefícios) em razão da água caindo do céu. Sozinhos ou não, eles vão ao parque todo sábado, fazendo frio ou calor. Somente a chuva o faz deter.  

---- Bonitona do pai. Hoje não vai dar pra a gente sair. Nem pro parque, nem pro café. Tá vendo esta mensagem aqui, no celular do pai? Então, por causa da chuva, vamos ficar sem ver nossos amigos. Ele achou melhor não irmos. Ei! Pode parar de fazer esta cara de cachorro sem dono. Vem aqui, vem! Fofa do pai! Que pena, né? Amanhã eu prometo que levo você, viu lindona?

Ele a coloca na área de serviço, já com o gordo jornal em mãos. Ela entende tudo e o segue, como uma boa menina (e arteira) que é.

A chuva segue sem trégua e a energia ainda nada. Tomando o café no banco da cozinha, ele ainda absorto por ter acordado, segue pensando nos benefícios daquela amizade. Descalço, vestindo uma velha cueca tão somente, sorri ao pensar na nova amizade (sem mencionar os seguidos bocejos). A companheira inseparável de quatro parecendo entender a razão daquele sorriso, chega na cozinha observando-o. Que amor mais incomensurável um detinha pelo outro, desde três semanas de vida. Ela fica feliz em vê-lo feliz. Aninha-se no tapete ao lado dele, tão segura, mesmo que a chuva pela Pauliceia apertando sem medo e sem dó. 

Mais uma mensagem, ele vendo a chuva cair pela janela, o conforta. E o "beneficiário" convidado-os pra um almoço naquele restaurante vegano na Alameda Jaú. O estabelecimento, moderno como a cidade de São Paulo, tem um lugar para cachorros ficarem enquanto seus tutores se refestelam no festim de vegetais, grãos e todo o resto concernente. 

Ele está feliz. E cada gota que escorre com certo vagar pela janela o faz lembrar que está lhe fazendo bem ter esta paciência nesta nova amizade. os pingos vão escorrendo, devagar, devagar inundando a borda do grande vidro... Em uma atitude tão certeira que os desobriga ter pressa. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VIAGEM CCCXLIII - UM AVISO AQUI DA TERRA

Arquivo pessoal - Piracicaba e o Rio Piracicaba
Um aviso por escrito da natureza do planeta redondo aos homens que habitam os quatro cantos da Terra. 

"Bilhões não estão perto de quaisquer soluções. Problemas tamanhos, um amontoado que ocupa espaço desde o fundo abissal do Pacífico ao topo do Everest. 

Há muita gente por aqui, sem sequer um predador natural, sempre é dito por nós, os elementos naturais, provisoriamente indefesos.

Atenção ao advérbio de tempo. O tempo passa e vocês todos sabem disso.

Para aqueles que matam, esfolam, destroem, trucidam, arrasam e poluem - o nome disto é poder, a causa é o dinheiro - seres, rios, mares, florestas, campos, várzeas, montanhas, animais - de primatas e a todos eles. 
Derrubam e queimam árvores para lá e para cá, sempre a torto e a direito.

Exploram a terra, arrancam minerais das profundezas terrenas
das profundezas dos oceanos

Plásticos! Tartarugas, peixes e baleias morrem.

à sua soberba a nossa indignação

ao seu desprezo a nossa importância

à sua matança a nossa luta

à sua ação a minha reação

à sua indignidade a nossa indignidade da inocência

pueril? infantil?

não; apenas a indignidade de inocente de quem da verdade está repleto,
ao lado, iluminado-nos e ensombrecendo-os.

Canalhas sem fim.
Demagogos dissimulados.

Para terminar com tudo, vocês conseguiriam
Para eu terminar com tudo, contudo, eu serei primeiro...

A minha reação será sempre pior que a sua danosa ação".