terça-feira, 14 de março de 2017

66] CENÁRIO SP - UM FILME DE LONGA DURAÇÃO

Monumento às Bandeiras/Arquivo Pessoal - São Paulo
uma cena de filme sempre se passa pelas ruas, quarteirões e casas da cidade de São Paulo; nos prédios, aqueles em altos, em sobrados, em vielas, nas esquinas dos delírios e por todo o lugar paulistano.

às vezes parece ser um filme mudo, de câmera de alta-rotação com as pernas em descompasso rítmico, em jogos de chiaroscuro, olhos que brilham e frases ditas por letras. Um filme noir, enredando mistério, sedução, morte e ladroagem. 


e o de terror? Algum bicho que emergisse do... Mar? Não, do oceano Atlântico sem chances. Longe uns 50 quilômetros daqui. Poderia vir das matas da Serra do Mar? Lá sim, pertinho do grande mar e que aterrorizaria toda a cidade. Destruiria as construções da Avenida Paulista, desceria a Consolação e derrubaria as construções históricas.


um épico, talvez? Desde a subida da serra, pelos percalços dos contrafortes impostos, pela garoa que enregela o corpo... De 1554 a 2017, os tantos fatos que aqui se sucederam seriam narrados em um filme - no caso um longa-metragem de 3h - que incluiria bandeirantes, portugueses, índios, negros. Toda a gente paulista/paulistana, imigrantes, os negros libertos; e homens e mulheres, de hoje e de todos os cantos da mancha urbana da Pauliceia.


Nada. O filme dele é bem previsível... Comum, normal, e que todos sabem o fim? Quem for assistir, claro, mas nem todos saberão do fim. Motivo: porque o filme dele, pelo acordo dele com ele mesmo, passou a receber mais incentivos de todo quanto é jeito, investimentos mais e até um arremedo de amor está rolando (daqueles que são açucarados, leves, engraçadinhos). Foi espichado para que ele não vá antes do devido tempo e também para que possa ter momentos de erotismo explícito. Ok, ok, de vez em quanto um daqueles pornográficos bem ao gosto baixo e ordinário.


("há que se aproveitar a vida um pouco, afinal eu ganho $ para isto e me mato todo santo dia para isto")


engatou um namoro tem uns meses, logo após ter desfeito um que durara sete longos anos ("sete é conta de mentiroso"), e todo o seu foco e para um final feliz que seja o melhor para ambos; mesmo porque estar feliz é um conceito que difere de um ser para outro e o tempo do longa-metragem deve variar por conta dos acertos e desacertos.


o que ele quer e luta é que, ao menos, seja de longa duração, com o cenário São Paulo dando vida a tudo para eles.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

65] CENÁRIO SP - À BEIRA DO PRECIPÍCIO, TUDO É PRAZER

Arquivo pessoal - Chuva/Aclimação/São Paulo
andando na beira do precipício, pelos prédios mais altos da cidade de São Paulo, ele pula de um para outro, como em um desenho animando no qual não há obstáculos à fantasia. 

sua fantasiosa andança tem nome: o auto-controle em "passear" por ali, caminhando no percalço, caminhando colado ao nada, pelos beirais, muros e adornos arquitetônicos (neste quesito, o Martinelli se sobrepunha - mesmo sendo um "anão" diante dos outros, quedara-se o preferido)

há bem pouco (meses talvez), caía a toda hora que tentava ali andar por estes lugares; claro do lado de dentro. 

e por que caía desabando ao chão igual a jaca podre do pé? pelo vento, pelo desiquilíbrio, pela vertigem, pela atração da queda, pelo vento entrando ferozmente em sua narinas (e gostava deste último fator), alargando-as? 

caía mesmo porque tudo o que fazia, ou melhor, tudo o que o impelia a andar pelos muros protetores dos altos prédios de São Paulo, possuía uma verdadeira relação com o uso, com o antes, com o que ele realizava insanamente momentos atrás. Atrasadamente, ele percebia que caminhar por ali adiantava alguns problemas... Afastando-os.

tamanho era o desejo e equilibrar-se que este se tornara uma espécie de remédio às avessas: em geral, para pessoas que querem se curar, o medicamento é adquirido para sanar um problema (lembram-se da insanidade citada logo acima? pois é... Paradoxal total); porém, no caso dele, o vício era para não se curar; era para se tornar mais e mais dependentes.

nestes lugares, o que ele via, como no COPAN, era a casa das máquinas; no Itália, a vista de 360° e proteção inócua do vidro blindex erguido para "uns idiotas que sucumbiram à tentação, e, deliberadamente, se jogaram". 

ele? longe de se jogar, assim pura e simplesmente, por protesto e/ou para causar problemas aos outros: ele é um sobrevivente, porque se joga por prazer, por resolução a médio prazo e para sentir o ar violando suas vias aéreas. Tinha a ver com ele tão-somente.
agora, me respondam: por que ele precisaria de mais motivos, um sequer que fosse.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

VIAGEM CCCXXII - TUDO BEM ARRUMADO PELA SOLIDÃO

Na "capital da solidão (?)" ele é o único habitante e "está muito bem assim", repete feito mantra hindu. Os milhões que habitam São Paulo são descabidos ali no endereço. Simples, concordam?

E mesmo assim emenda sempre em seguida quando se depara com a casa vazia, a cama impecavelmente arrumada todas as manhãs, com a solteira xícara de café (para levantar defunto, é claro), com o silêncio enternecedor diário e com a chuva que se queda nesta estação pela cidade - ainda que não seja as famosas águas de março fechando o verão.

Tudo em seu respectivo lugar, de forma que o que for procurado seja achado com rapidez: sapatos, gravatas, meias, cuecas, camisas e as vestimentas em geral.

Na estante, livros sobre o comportamento humano, estudos mil, desde a sexualidade às variações psíquicas dos grandes mestres; desde a história de Roma aos modernos arrazoados de como está a humanidade nestes tempos de refugiados aos milhões. Há também aqueles tratados que versam sobre o fanatismo religioso, sobre a intolerância, ou seja, "tudo tão característico do homem, não é?", murmura para as paredes.

Arrumados impecavelmente por assunto, e dentro deste, por ordem alfabética de sobrenome - claro, para poder ter tudo sobre controle (o controle físico, pois há determinados livros que el precisa ler duas, até três vezes - aconteceu com Dante de infindáveis versos).

Quem frequenta seu lugar (e quem frequenta?!), ao adentrar na soturna sala de tom monocromático com pequenas variações sobre este, percebe que ali mora um homem avesso ao contacto social, seja de qualquer ser humano. Independente do sexo, da profissão, da beleza, do $, quem frequenta é porque algo acontece que foge ao seu controle hermético: um problema irresolvível pelas suas próprias mãos. Podem ser o cara da internet, um encanador, e, evidente que sim, sua secretária faxineira que limpa o apartamento de dois quartos. 

Incluindo alguns aparelhos para ele se exercitar que comprara na Santa Ifigênia meses atrás: o ambiente da academia o punha enfastiado e se caracteriza pelo fato que ele nada podia fazer. Alterna em casa leituras do trabalho, leituras diversas e exercícios de grande variação.

Irrepreensivelmente, praticamente ninguém ali frequenta caso não seja de absoluta necessidade. 

O porquê? Alguns desavisados de inadvertidas reações talvez demorem muito em entender, ou ainda mais, nem desejem fazê-lo. Ele quer assim, ele mantém assim para que desarrumações fiquem bem longe de sua vida.

"A solidão traz uma arrumação que eu controlo, uma arrumação na qual eu me viro bem, sem interferências externas de gente para balançar meu entendimento, nem para bagunçar aqui dentro, nem meu sexo nem minha cabeça".

Tudo bem "arrumadinho" pela solidão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

VIAGEM CCCXXI - "TOME, ENGULA O SAPO E SE RESIGNE"

Arquivo pessoal/SP
Preferia lidar com máquinas. E faz tempo que tinha esta preferência. Por que? 

"Bem, primeiro que eu posso bater, xingar, esmurrar e não vai haver lei de não sei das quantas, gritos e mimimis. Melhor ainda: posso jogar fora no lixo sem medo e sem dó e ir à loja comprar outro melhor, mais caro, mais moderno e mais tudo. Jogar fora 'mêmu', nem pra reciclar o traste vou levar. E tem algo que se recicle neste lixo?"

Lembrava-se, de quando em vez, que fazer sabão poderia ser uma ideia para resolver o problema todo. "Hum, mas pensando melhor, este processo de tornar os sapiens em sabonetes deve dar um trabalhão, nem mencionando que o perfume deve ser muito ruim". Ria com prazer toda vez pela lembrança.

Brincadeiras à parte, os computadores e máquinas afins e as nada afins, são tão simples de se lidar.
Verdade sim, são mais simples.

Então... Tome, e sem escapatória. Bem tomado, porque há que se lidar com os homo sapiens sapiens ("serão tão sapiens assim...?"), a menos que fosse possível, um dia quem sabe viver na total solidão - o que, infelizmente, é improvável. Os sapiens tem algum valor porque alguns deles produzem máquinas, cultivam a terra, conduzem carros, trens, aviões e navios, operam outros sapiens. Apesar que se matam, se destroem, se aniquilam. O pior é destruírem o ambiente à volta, animais, árvores. 

Então engula os sapos peçonhentos e espinhentos, bem engolidos, se se quer aturar aqueles que fazem algo construtivo. "É que viver sozinho não é auto-sustentável; gostaria que fosse, mas eu gostar ou deixar de gostar nada conta". Indigestos estes sapiens que se aproveitam, que enganam e, o pior, que mentem. "Ah sim! Porque eles mentem e é muito o que mentem. Das pequenas às grandes diuturnamente. Sem parar e parece mesmo que querem, os próprios, crerem nas tais mentiras exteriorizadas".

Para ele o que sobrava? 
Resignação. Por este fator, decidira viver o quanto pudesse sem contacto estrito que estabelecesse algum tipo de vínculo afetivo. Deixara de ser afeito a afetos. Ajudava na tarefa de Hércules porque realizava um trabalho que pouco necessitava do contacto físico e verbal com outros sapiens - era um escritor observador extremo e atento - o que trazia uma quase felicidade diante de tanta iniquidade presenciada todo santo dia.

Resignou-se por tudo isto. E mais, por ele mesmo.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

64] CENÁRIO SP - COMEÇO, MEIO E FIM: ONDE É TUDO ISTO?

Arquivo Pessoal- Pátio do Colégio/São Paulo
Meio atrapalhado com o começo e o fim das coisas. E das pessoas e dos sentimentos. Parece que combina com São Paulo que não tem começo nem fim - mas meio tem um montão!
Sabe, porém, que o local escolhido para ser o começo da história da metrópole e o tal Pátio do Colégio - ou, como está escrito nas placas históricas "Páteo do Collégio".

Narcísicos paulistanos? Egos que não se cabem? Que desconhecem um limite do razoável de onde começar e de onde parar para que os parâmetros de boa convivência não caiam em alguma val comum dos ditos "legais".

É porque aprendera que usar da humildade pode dar muito certo para descobrir onde começa e termina o ego, mesmo que de primeiro uso possa soar idiota e fazê-lo suar como tampa de marmita. 

Tanta gente ,tantos "eus" que se comportam com se tivessem porte algum no ramo ali do amor, sabem? Dizem que todos querem (pelo menos muitos afirmam, se é verdade... ele não sabe) este tal amor. E estes tais falam que nunca chega o tal amor porque as pessoas estão assim, são deste jeito, daquele comportamento e que cada vez mais são mais e mais narcisistas.

Opa! E estes parecem que só enxergam o rabo do outro. E o próprio? Só para constar, então, são os outros que devem ser menos egocêntricos/ególatras apenas? Quem "reclama" pode passar batido porque sabe do começo, do meio e do fim dos sentimentos mais nobres?

"A-hã", ele balbucia para ele mesmo debaixo da água fria do chuveiro em meio a um fevereiro quente e abrasador em São Paulo. "Uma cidade como esta que ata, desata, aumenta, encolhe, conhece, desconhece e ainda tem gente que só mesmo afirma que cabe aos outros a qualidade da humildade?"

Ele sabe - e aprendeu com afinco há anos - que humildade conta pouco. O que vale são os egos a serem massageados para verterem, transbordarem e ninguém saber do começo e do meio. Porque do fim ele sabe qual será destes que são os "imensuráveis"; dos egos que se perderam e que não sabem mais quando terminar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VIAGEM CCCXX - O FAROL RESILIENTE

Arquivo pessoal - Av. 9 de Julho, São Paulo/SP

longe, muito longe, mais longe do que qualquer um de vocês possa imaginar

em um tempo atual e por isto o mesmo o abandono é maior

maior porque hoje há conexão para tudo, mídias sociais

narcisos, egos, fotos, selfies que imbecilizam... Espelhos que enaltecem (?);

então neste mundo de meu Deus

onde existe conexão para tudo...

para desamores e amores (talvez mais raros)

para a felicidade em geral, para a solidão forçada e

para a solidão optada... E a vida não vai além disto?

Bem, nem sempre na prática este "tudo" significa tudo mesmo...

Daí o abandono ser maior,

a solidão ser exagerada naquele farol de 30 metros

viu dias de sol intenso, secos

sentiu tormentas caírem do céu desbragadamente

granizo, garoa, salinidade... tudo poderia corroer sua estrutura

e corroendo ele estaria fadado a desabar 

do alto de sua imponente resistência/resiliência

por décadas tem sobrevivido assim

sem muito precisão de qualquer um que deseje um rumo à vida...

Resiste sento um afastado, um corroído, e um digno.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

VIAGEM CCCXIX - TIRO, TEMPESTADE, TUMULTO

Arquivo pessoal - Aclimação/São Paulo/SP

o tumulto de milhares,

a tempestade de verão,

o tiro perdido ao longe,

o tempo que pareceu estancar e vou contar o porquê:

a dor nas juntas

a diabete nas alturas

tamanho foi o espanto de todas as sinapses

tudo, àquele momento, resumia-se a mim e a você

típico de meu nervosismo

fechando janelas

trancando portas

fones de ouvidos para estar longe do tumulto...

trazia você um amor nas mãos

o coração na boca

e todo seu corpo para mim

abracei, apertei, mordisquei e trouxe você para dentro

longe do tiro, da tempestade e do tumulto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

VIAGEM CCCXVIII - NA COMPANHIA DA CHUVA

Arquivo pessoal - Av. Paulista/São Paulo/SP

uma estrada,
longe e sinuosa,
um rádio ligado em baixo volume,
apareceu um pequeno trevo
estacionamos
chuva, muita chuva
frio, muito frio de 5 graus
longe, muito longe
cidade mais próxima
...

uns 200 km...?
noite, trovões, chuva que aperta
um SUV,
preto como a noite,
banco reclinado
3 dormem a sono solto, ressonam
2 grandes
1 mediano, ao meio
edredons misturados
...

alta noite
meio da madrugada,
lá pelas 3h e tanto
um leve acordar
vidros embaçados
e no vidro detrás
nariz nele...
contemplação permitida
pelos relâmpagos
...

uns 5 minutos ali
vendo, tentando ver
o que a luz que pisca-pisca
vinda do céu oferecia,
em clarões de centelhas
conseguiu ver algumas árvores próximas,
o chão encharcado,
e as companhias dormindo
iguais a filhotes protegidos, aninhados


e em átimo
considerou-se feliz, tranquilo,
seguro e confiante
ali, longe de qualquer resquício
civilizatório,
deitou-se novamente,
ajeitou as cobertas
ajeitou-se entre as companhias
ouvindo a chuva tornar-se mais forte
...
e antes de dormir
desejou estar sempre com aquelas companhias e
desejou que a chuva durasse para sempre


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

VIAGEM CCCXVII - O TIRO NO MEIO DA MADRUGADA


um cafe, lá pelas tantas

andanças pela casa, sem parar, na madrugada

que se arrastava, lenta feito tartaruga cansada na praia

depois de enterrar os ovos

sozinho, depois da tentativa de ser "a 2",

pensava melhor em tudo

pé direito descalço

cigarro na mão esquerda

o esquerdo de meia

a direita queimada na ponta

corpo moído

relógio da cozinha que batia

tic-tac, mais tic-tac

no calor de janeiro

abafado, quente

de repente ouviu trovejadas ao longe

que vinha, ele achou, da Cantareira

"deve chover a cântaros", pensou

apagou as fotos

exclui do face

parou de seguir no instagram

mas nem mesmo isto consertava o corte

coração cortado ao meio

tensão nele que parecia estar sufocado

dado momento abriu a janela da sacada

perfume de dama-da-noite

o vento ventando,

encheu suas narinas

olhou as luzes, milhares

milhões delas

pontos de janela acesos

volta pelo território

nova volta e meia pela casa

desnudo e suado

sem o banho da madrugada

caminhou na sacada

meia suja então

última baforada

fumaça nos olhos

o vento... "Que vento é este"

uivava pelas frestas

assim que entrou, ouviu o tiro

um tiro no meio da madrugada paulistana

vindo da de onde o sol nasce,

vinha da onde sol nasce: Ipiranga, Mooca, algo destas bandas

mas perto, bem perto

parou tudo

respiração, andar, nem beber, nada

e o tiro foi um só

e pronto, lá estava o corpo no asfalto,

sangrando... A chuva chovia àquela hora sem medo,

sem dó

foi só o que conseguiu ouvir antes das águas de janeiro

pelo meio do verão:

um tiro no meio da madrugada

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

63] CENÁRIO SP - COMO MATAR O CHEFE PELA MANHÃ

Arquivo pessoal - Av. São Luís/São Paulo

Olhando pela fresta da janela, ele vê o sol incidir no poste do outro lado da calçada causando uma sombra esguia, elegante, sobre o chão com o mapa do estado de São Paulo. Ainda com o copo de café fumegante nas mãos, ajeita um pouco a cueca esgarçada lembrando-o que o banho será daqui a pouco.

Sim, hoje ele cometerá o fato que sempre quis cometer, mas que até agora não havido tido culhões para tanto; daí a lembrança ao pôr a mão nas partes envoltas perla cueca branca.

Nem tão alto, o sobrado de três andares possibilita uma boa visão da rua, agora já em franco movimento; o sol ainda faz sobra elegantes sobre os objetos cênicos de rua - elementos construídos pelo bicho homem; até mesmo as romãzeiras plantadas em sua calçada foram plantadas pela prefeitura em algum ano ímpar distante. Bem, isto é OK, porque fazem sombra e são mesmo bonitas a qualquer vista. 

Apressa-se de maneira contumaz porque em sua cabeça uma ideia fixa fervilha. Liga o chuveiro, opção "sem opção" e a água gelada em seu corpo no verão paulistano que começa hoje, logra refrescar o suor adquirido pela noite, em uma companhia já escanteada antes mesmo da tal história da nesga aberta pelo vidro da janela do quarto.

Lava-se com cuidado. Sabonete simples, xampu simples, mesmo que os cabelos já tenham iniciado a famosa queda genética lá pelos seus 30 e tantos; pés, os vãos dos dedos (há pouco tão agraciados por uma língua generosa e nervosa), pernas, joelhos, abdômen, sovacos e todo o resto.

Pingando ainda, pelo chão do quarto, seca-se com a felpuda, porém úmida toalha usada pela companhia logo antes, e começa o processo de se vestir. Passando rapidamente pela o armário os olhos, escolhe um terno preto, quase fosco, uma camisa azul-claro e a gravata preta, obviamente. Um figurino elegante compondo com os sapatos pretos engraxados à exaustão. A barba ficou por fazer mesmo... É o tom de desalinho para o que irá fazer e que é necessário.

Metrô e mais três estações chega ao seu antigo trabalho, claro, na Paulista. Agora são 8h15 e a via já está começando a se movimentar como convém à principal avenida da cidade de São Paulo: gente chegando, saindo, comendo, correndo, andando, vendendo, comprando e todos os "ndos" possíveis. Sempre quando vem para cá, vindo ali de perto da Vila Mariana, se encanta. Não tem jeito!

Ainda portando o crachá, dirige-se ao departamento pessoal para assinar a demissão que, sendo com justa causa, causar-lhe-á problemas financeiros. Pensando bem, causará porra nenhuma. Tudo assinado, com a assistente social tentando - e é visível tal tentativa - ser simpática e estimuladora de "melhores dias que por certo virão" (as aspas se devem á fala da própria, ele mesmo tem dúvidas).

Pronto. Agora ele irá fazer o que está proposto em sua cabeça, depois que, dia atrás, descobriu um desvio de verba pública por parte de seu superior. As provas estavam em um HD externo, guardado em um local bem seguro. Fora demitido por justa causa, porque sem mais nem menos, seu chefe - o diretor superintendente - logrou adulterar seu dois últimos exames toxicológicos, realizados trimestralmente. Consta no estatuto que dois destes seguidos de um "sim" para o uso de álcool e/ou outra substância, o empregado pode ser demitido por justa causa. Vale dizer que ele havia parado de beber desde quando fora admitido, ou seja, cinco anos passados.

Mas, pelo poder que o tal chefe tinha, emaranhando-se em uma teia de cupinchas, puxa-sacos, paus-mandados e afins, os exames foram adulterados. E ele somente tomou conhecimento quando o chamaram no RH para lhe perguntarem do segundo exame. E como se percebe... Já era tarde.

Entra na sala ainda vazia. O diretor, como de costume, está, decerto, se atracando com a diretora de RH nas escadas frias e escuras do último andar. Ao sentar-se sobre mesa, pernas ao léu, percebe que engordara um pouquinho pelo aperto que o calça lhe fez na cintura para baixo. A espera não dura mais do que cinco minutos.

Apenas um tiro é disparado pelo andar totalmente vazio: o silenciador que comprara na Santa Ifigênia funcionou muito bem. O tal canalha cai no chão de carpete marrom esvaindo-se em sangue. Ele, em uma calma suprema, vestindo luvas, sai da sala, desce pela escada andares abaixo.

Tudo feito. Ele ganha a rua, ou melhor, a avenida mais paulista e brasileira de todas, e vai andando até a estação de metrô. 
---- Bem, um café antes é uma ótima ideia.