quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VIAGEM CXXXIV - O AMOR É INTELIGÊNCIA

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Pelo cimento, pelo concreto, eles caminhavam pela leveza
dos dias de alegria, de felicidade.
De milhares de beijos sem fim
de palavras de amor aos montes.

Pelo concreto, seus pés caminham ao lado de outro par...
Por caminhos tortos, cheios de vieses, porque a vida
é mesmo assim.
Subindo, subindo, as mãos atadas, a mente pensante por demais
(ele tem certo que o amor lhe deu mais inteligência).

Vivas mentes como jamais foram, se enchem de serotonina com quem caminham
por tantos quilômetros de vida que virão.
Em sorrisos estampados, suados, com bocas que falam,
falam sem parar.

Atropelos de fonemas, risos dos 2.
Cinza só mesmo o cimento que é pisado porque esta é a função dele:
mostrar caminho e permanecer embaixo, feito um suporte.
Triste?

Não, eles caminham com destino incerto, por certo, mas juntos por tanto
amor, segredos
cumplicidade, ajuda
amizade e união.

http://www.vsamn.org/newsletter_2002_autumn.html

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

93 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - O MAPA DA CALÇADA

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Sexta e que seja uma boa sexta no fim de noite para ele. Voltando do trabalho em suas divagações mil, resolve ir a pé e caminhar cerca de 40 minutos - a distância sem pressa até sua casa. Mesmo que cansado esteja e com um pouco de dor nos pés, caminhar livremente sem ter que pegar metrô - embora mais rápido e mais seguro talvez... - para poder parar pela padaria, pedir uma pizza ou mesmo seguir direto sem parada alguma.

Recém comprado, seus sapatos lhe apertam os pés. 
"Devo ter o pé esquerdo maior que o direito, só pode ser. Direito 42 e esquerdo... 42,5. Este 0,5 faria toda a diferença para o meu pé. Até amaciar o pisante preto, vou criar bolhas no calcanhar e no dedinho. Mais meio número e estaria ok".

Pelas calçadas com formato do mapa do Estado de São Paulo em pedras pretas e brancas, ele avista, tirando os olhos para cima em um instante, seu prédio, de construção dos anos 90. 

"Estão as pedrinhas pretas mais para cinzas escuras e as brancas mais para cinzas claras. Nunca havia pensado nisto, que ela vão mudando de cor: sol, chuva, frio, gente que suja, carros, gente que anda. Mesmo assim, a calçada fica bonita. Jamais vi outra assim, uma que tivesse um mapa estilizado. E já andei em muitos lugares".

No bolso interno do colete, o telefone está guardado até quase no fim da caminhada de volta para o inalcançável castelo perdido entre tantos outros, em chão de Pauliceia em total desvario. Mas há duas mensagens e como se soubesse, o arranca do tal bolso para verificar - vezo tão comum por estes tempos telefonia celular.

--- Número desconhecido? De novo? Chegou na hora que eu saí da editora.
Quase em exclamação, tanto que a vovó de cabelos com mechas roxas que passeia com seu pug olha para ele assustada fazendo menção de participar da conversa.

18h12
"Não desisti de vc. E acho que nunca vou desistir. Sou eu msm, já te mandei outro recado faz uns dias. Mas tenho tanto medo de me revelar. Tanto q fico me escondendo e ao mesmo tempo, às vezes tão perto. Vc me conhece e quando eu tiver coragem, vc vai tomar um susto de saber quem eu sou"

18h17
"Susto porque eu nem sei se vc vai gostar de me conhecer. Tem mta coisa em vc que eu não tenho crtz. Nunca consegui perguntar se vc gosta. Crtz só uma, ou melhor 2:  seu susto e meu amor por vc. Bj".


Começa a passar em sua cabeça que quem manda tal mensagem pode ser alguém do trabalho. Uma mulher ou mesmo um homem pode estar mandando os recados. Ninguém de seu setor direto, ele supõe.
Não lhe vem ninguém à mente em específico, mas sim umas cinco pessoas: três mulheres e dois homens. De hierarquia variada no organograma da Editora Paulista.

"Mas não sei se são estas pessoas mesmo que estou pensando. PQP! Que revelação mais demorada da cacete meu! Porque a criatura não se revela logo? Qualquer que seja a orientação sexual, não vai rolar porque  eu tenho que me manter como estou: sozinho, um eremita entre os 11 milhões. Se revela logo, fica fazendo suspense. Que porra!".

Chega em casa. Arranca os sapatos jogando-os pela sala, afrouxa a gravata. Estala todos os dedos, para cima e para baixo com Rex pulando nele e Felino em seu cangote. Todos os três se revelaram grandes parceiros de brincadeiras; hoje não está diferente.

http://isaacbrum.wordpress.com/2012/12/01/outras/calcada_sao-paulo/

terça-feira, 20 de agosto de 2013

VIAGEM CXXXIII - É PARECIDO OU É DIFERENTE?

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(em algum lugar por aí, um escrito que vai pela ventania)
 
"Neste agosto - que já foi de desgosto -, perene eu fico a pensar naquilo que acontece em outras grandes cidades, parecidas com esta no tamanho. Temporariamente pensando...
Nos milhões de habitantes.
Metrópoles espalhadas pelo mundo, do lado de cá, do lado de lá, aqui embaixo, lá em cima; prestigiadas umas, esquecidas outras.
Desgostoso por só me lembrar das altas torres dos edifícios imponentes que tentam rasgar o azul do céu.

Tem gente em outro lugares, perdidos, ermos, acanhados, insalubres, morrendo, perseguindo e matando.
tudo: nas pequenas, nas grandes aglomerações de gente.
Centenas. Milhares. E os já ditos milhões.
Aqui, parado, escrevendo, frio de agosto, de uma umidade que nem é a cara - exatamente - de agosto, perdi o sono na grande cidade de São Paulo. 
Existem outros? Iguais (não sei, de verdade!)? 
Parecidos como eu sou com o mundo todo, dos bilhões que povoam este planeta redondo, tão dividido e sulcado de túneis quem mais separam que unem?

Dos erráticos caminhos escolhidos à tentativa de reverter as curvas íngremes e querendo, para variar, uma confortável reta para descansar, aqui mesmo na grande urbe de gente que vai. Gente que volta. Gente que fica e para.
Agosto, louco, espumante, raivoso, frio, dos melhores que há para não ser engolido por parecer igual, porque na dor, a gente é mais parecido do que diferente.

Nos ângulos de 90°, aqueles cotovelos que doem nas vidas, há os pontos de inflexão que fazem desaguar mares e mares nossos que, antes represados, se flexionam, mudam o curso... É o tal ângulo de 90° que quebra o caminho, inverte a dor, luta, e na arena de saibro, do asfalto dos milhões de São Paulo, invoca mudança.

Este processo kafkiano de barata urbana de centenas de milhões (devem ser bilhões), a 800 metros de altitude, pelo Trópico de Capricórnio, quero tanto saber se eu me mais me pareço do que diferencio de outro que - possivelmente - vaga por aí.

Mas não desejo comparação pela dor: acho que ela iguala mesmo com tanta precisão que fico sendo mais um em uma multidão; rastreando alguém que seja um resgate, que me diferencie dos tantos... Mas que me diferencie, sem me segregar.
Deve ser mesmo tudo igual naquela cidadezinha desaparecida das coordenadas da geografia de tão pequena que é como nesta aqui, das maiores, das cidades alfas? Pela separação ou diferenciação é que são iguais?".

http://goodmenproject.com/the-good-life/gmp-contributor-aaron-gilbreath-is-crowdfunding-to-study-the-effects-of-crowding/

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

92 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - PEQUENAS MASSAGENS DE ILUSÃO

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Segunda-feira, da semana seguinte à mensagem do fim de semana anterior, começa sem novidades pelo telefone, sem recados. Zero para manchar os dias de ficar trancado em casa, no castelo que é um forte moderno, nos andares mais altos da cidade de São Paulo.

Nada.
Zero. Caixa de mensagens vazia, porque apagara todos, sem distinção, na manhã de sábado; apagou porque não queria ficar preocupado tentando descobrir e por compulsão, ficar olhando de 5 em 5 minutos se chegaria mais recados e com alguns destes, um número "real" de telefone - mesmo que sem registro em sua agenda do celular.
(e diga-se, aliás, que depois de ficar cismado aflitivamente de pensar quem poderia ter mandado, ele até que gostou de receber; fez um pequeno bem para o seu ego).

Sente-se massageado, no ego mesmo.
E é uma das boas massagens, daquelas que levantam o humor, arrefecendo o ranço de problemas eventuais do cotidiano; sorrindo segue ao trabalho, com sensação de alimentado pelo mingau com cereais, o suco de uva com torradas e o café para arrematar tudo. Comera mais hoje.

Disposição renovada para a semana. Massageado como há tempos sua emoção não recebia "mãos" tão vigorosas e prudentes ao mesmo tempo: vigor porque depois de anos, tudo que se refere à emoção tem carácter de vigor intenso, e prudente porque a dose foi exemplar, já que foi uma mensagem não identificada.

"Quer saber, seu trabalhador massageado?  Eu quero mesmo saber? Claro que sim! Melhor mesmo que não o tal número seja não identificado. Meio estranho na hora porque quem fez isto deseja o que de verdade, não é...? E causou sensação, sem dúvida. É mais do que suficiente para mim ter este rasgo de tesão, mesmo que seja por dígitos de silício".  

http://prakashswamy.blogspot.com.br/2013/06/265-time-tested-tips-and-techniques-for.html

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

91 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - A NOITE, O SONO E O RECADO

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Frio, muito frio.
Palpitação; batimentos em disparada.
Resfolega enquanto ajeita o cachecol e o sobretudo negros como breu.
Pelos arrepiados da nuca até lá; um frêmito de frio.
Dedos dos pés doídos, duros.
Lábios rachados, quase feridos.
Narinas entupidas.
Guarda-chuva e todo paramento resguardam-no da garoa de São Paulo.

E vai andando até sua casa na saída do trabalho, melhor, caminha até o metrô no horário de grande afluxo de gente paulistana e de outros lugares. Como rios que correm para o maior deles - o Amazonas -, estas águas correm com gente que sente frio no agosto mais frio dos últimos 40 anos.

Hoje, saíra mais cedo porque tiritava de frio encarapitado no 33° andar após uma reunião que fora feita para parecer regada a água clara, mas que parecera mais uma ratoeira rota e esfarrapada. Rapidez tamanha que ele se enfastiou. Por fim, sai antes mesmo das 17h10, um prodígio da porra para um Caxias como ele.

Portas se abrem e ele desce na estação espremido entre tantos. Seu castelo intransitável para grandes e pequenas multidões quente e acolhedor deve estar. "Apenas uma festa de ar corre por lá, aquela da área de serviço que circula pelo meu espaço todo".

Já é noite às 17h30. Abre a imponente, forte e segura porta de madeira maciça e adentra no castelo invencível para todo o resto mundo. Prostrar-se-á na cama em seguida... Depois de afagos e troca das bacias de água e comida de Rex e Felino, é claro. Conseguiu pelo trajeto manter-se seco: seus pés firam bem protegidos pelos sapatos de cano alto.

Pronto para deitar-se na cama, enrodilhar-se nos pesados edredons em meio a malha vestida nas pernas e camiseta, recebe um recado pelo SMS, na verdade, são dois. "Você ainda não percebeu? Eu quero fazer parte da sua vida. Quero agora, quero para sempre. Tenho tanto desejo de beijar sua boca quando fico observando-o de longe sem você me ver. Às vezes nem tão longe...".

Incontinente, seu sono some para bem longe e o cansaço físico não é mais páreo para sua mente povoada de interrogações que sobrepostas umas as outras o mantém ereto na cama pensando. 
--- Quem é? Número desconhecido. Quem pode ser? E me observa desde quando? Da onde faz isto? Conhece até minha rotina. Quem é? 

Pensa, pensa e pensa mais um tanto. Deita-se e sem jantar um nada, dorme depois de encanar com os recados mandados. Ainda nem são 21h e ele dorme a sono solto, alternado respiração pelo nariz/boca; e mais um recado chega neste meio tempo.

http://soiland-reyes.com/stian/

terça-feira, 13 de agosto de 2013

90 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - A CORRIDA TEM QUE PARAR

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Telefone tocando sem parar.
Avisos de mensagens pela rede social.
Secretário avisando de reuniões e compromissos.
O outro telefone também tocando.
Emails chegando; maioria sem resposta.
Planilhas em profusão vindas por download.
Relatórios a serem lidos para pareceres imediatos.

E ele preocupado com tudo isto por todos os instantes deste dia de agosto. Até agora, porque logo antes do almoço uma fome primitiva o avisa que nem mesmo torrada comera pela manhã - bem cedo - hoje. Demorara-se mais no banho divagando sobre como o dia seria produtivo e acabou atrasando-se. 
Faz tudo corrido. Até que o estômago o lembra que é hora de parar e ingerir algo de sólido.

"Bem lembrado, seu apressado exagerado: eu também mereço os 'frugais prazeres da vida'. Estou correndo desde que saí do banho. E que foi 'incompleto'. Mas mereço uma parada. Afinal, venho de onde todos vieram e acho que devo ir para onde a maioria vai. Para onde vai a maioria? Sei lá, porém tenho certo para mim que vou com esta tal". 


Descendo os mais de 30 andares do grande edifício da Editora Paulista para comer algo antes do almoço. Apressado, faz tudo corrido até perceber que o elevador para em vários pontos em sua escalada rumo ao térreo. Olha no relógio, a porta se abre e então, diminui o passo.


--- Vai almoçar já, senhor?
Quem pergunta é o chefe da segurança da editora. De maneira afável, com o sorriso estampado nos lábios e o terno impecável no corte pelo corpo, ele sempre o cumprimenta. O bom humor é a marca de todos os dias nesta relação.

--- Ainda não, mas me deu fome. Quer algo da padaria? 
--- Não,  muito obrigado. Vou almoçar daqui uns 10 minutos, se eu comer agora, corro o risco de perder o apetite. O senhor sabe: tenho que manter a forma. Até para dar o exemplo a todos os subordinados aqui. Mas obrigado mesmo.
--- Ok, tudo bem. E eu corro o sério risco de morrer de fome. Arruma a gravata, ela está torta. Muito torta. Você é a chefia máxima aqui embaixo. Tem que estar de acordo. 
--- Tenho que aprender a dar outro nó. Só sei três.
Ele riem.
--- Sorte sua, eu aprendi só dois. Tenho um link que vi outro dia com todos os tipos de nós, vou te mandar.


Sem pressa, ele estaca logo na saída e vê o movimento da rua, que pulsa, corre e trabalha. Dirige-se à padaria com apenas um telefone. Calmamente senta-se e resoluto, firma-se no banco do balcão e observa o lugar, cheio, apressado, com ruídos vários. 
--- Um café, duas torradas. E uma água mineral, sem gás.
E bebe. E come. Tudo devagar. Respondendo e confrontando seu pensamento de que tudo está atrasado hoje.  Neste momento de delícia de vagar, seu coração se apruma e bate com mais compasso "atendendo" à ordem vinda de cima. "Devagar homem! Calma homem". 

Sente-se com certo tesão até em poder romper o vínculo do atraso imposto por ele mesmo desde cedo e recorda-se das horas de prazer, de delícias, nas quais misturava-se ao calor de seu antigo amor. Nem tão antigo, nem tão recente. Endurece-se e arruma-se porque a calça de social é de tecido fino e um tantinho justa.

Sorri pela lembrança. Nunca corria daquele amor, só corria para aquele amor. E quando juntos estavam, rapidez e calmaria se misturavam. Quem ganhava a corrida era quem se dispunha a não ganhar nada. Só prazer, só amor, só cumplicidade.

Até mesmo a conta veio devagar. E ele nem tem pressa.

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sábado, 10 de agosto de 2013

VIAGEM CXXXII - RODEANDO HUMANOS NO RODEIO

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Passeava pela cidade que não tem mais fim com seu seminovo sedã de velho, modelo 2011, cor preta, bicombustível, duplo airbag e o escambau a 4, quando já na saída pela rodovia dos Bandeirantes ouviu pela rádio - sintonizada em uma estação de uma cidade próxima -, a propaganda sobre uma festa de peão de boiadeiro, um rodeio, que seria aberta hoje, logo mais à noite. Agosto tem esta única sina de crueldade e dor.

"É para lá que eu vou. Faz tempo que não 'trabalho' fora de São Paulo. Outras cidades também merecem minha limpeza e as execuções decorrentes do meu esforço em melhorar o mundo e minorar sofrimento". 

Decidiu sem sombra alguma de dúvida no claro céu de brigadeiro que povoava sua mente profissional. Percorreu mais uns 50 quilômetros e chegou ao festim elaborado pelos velhacos endinheirados. Observou e já de cara, teve por certo escolher 3 para iniciar os trabalhos: um peão, claro, um organizador, óbvio e um espectador, evidente.

Esqueceu-se de um artista que lá se apresentaria na abertura. Na verdade, uma dupla sertaneja de Goiás (mais uma entre várias) que anos passados envolvera-se em uma briga pela imprensa acerca da defesa dos rodeios e da crueldade impingida aos bichos. 
"Não posso acreditar que Goiás só tenha duplas sertanejas para apresentar ao resto da 'nação potência' das mil maravilhas de Brasília, dos postes iluminados que acendem por lá... Deve haver algo mais lá do que estas duplas saídas do inferno de Dante, decerto que há. Cérbero cochilou e eles escaparam".

Estacionou o carro sentindo-se virulentamente ensandecido de gana de matar. 
Rodeou antes para escolher entre os machos de calças apertadas com os bagos espremidos e... "Tive uma ideia. Esta calça vai combinar bem". Rodeou bastante pelo recinto até bater o martelo em um que apregoava ser o melhor do Brasil, um dos melhores do mundo.  
"Você vai ver onde vai ser o melhor de agora em diante. Darei 'ordem' ao Cérbero para ele não deixar você nunca mais escapar. Para você, eu saí de lá de onde veio o cão. Divertido isto de ser vigiado por um cão, um bicho, um animal para você, não é? Que ironia, não é?".

Assim que ele terminou de se apresentar no moderno Coliseu, o talzinho foi pego pelos passantes da calça, teve a boca imobilizada, éter no nariz para tontear o tonto ainda mais, como se fora possível isto. Apertou-lhe os bagos - como também se fora possível isto - e foi rasgado pelo bucho, estripando-se pelo chão coberto de serragem.  
Deu-se tudo atrás do banheiro da área vip com muita rapidez tamanha fora sua avidez, sempre contumaz, quando via e presenciava injustiças perpetradas contra seres frágeis que não tiveram chance de escolha.

Todavia, ele vê que: "caminhando um pouco mais deparei-me com imensos coqueirais" (mas não no Ceará); ali organizadoras da festa, paramentadas com a fantasia fálica de "country girl", conversavam com ânimo e descontração. Até que apenas uma ficou falando em seu moderno celular. Sim, a bota com esporas gigantes, a ponteira de prata que reluzia com quantidade de grandes postes espalhados pelo local da "festa"; engoliu todas as duas de uma vez até espetarem-lhe a garganta e o nariz. Morreu estrebuchando. Sem dar um pio sequer.

No caminho de volta para o estacionamento, já dentro do carro, acendeu um cigarro e esperou apenas um minuto. Escolheu um pagante que comprou o ingresso mais caro porque ouviu deste que "gastei metade do meu salário, mas vale à pena" e que fora lhe pedir o isqueiro, todo cambaleante. Para este, tão idiota e tão bêbado, coube apenas uma esganadura, não sem antes dar-lhe com a chave de roda nas costas, de maneira contundente; ouviu apenas seu gemido seco, surdo. Também rápido.
Acabara. 

Decidiu ir embora porque poderiam descobrir os corpos e a coisa toda se complicar.
"Esta porra vai até o fim do mês de Otaviano Augusto, porque pretendo voltar para catar um daqueles artistas que se apresentam na arena da chacina, ou a dupla. Isto se a polícia federal não interditar esta porra de festa. Bem feito. Mas espero que seja semana que vem, assim termino o trabalho todo. Cantorzinhos cúmplices apenas me aguardem".

Sentiu o cheiro entranhado de estábulo por todo o caminho de volta a São Paulo.

http://bidat.denveroldwest.com/1920s-Cowboy-boots-with-Buermann-Spurs_i8531429

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

89 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - SOBRE IMPOSSIBILIDADES

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"Impossível que eu esteja pensando em mudar. Tsc, tsc... Como faz para não mudar mais, nunca mais? Impossível? Por que é assim? Dentro das minhas possibilidades de vida fica impossível modificá-las mesmo que, por agora, eu me pegue pensando em altera o estado quase eremita urbano em que vivo. 
Tenho mesmo que equacionar minhas necessidades físicas e emocionais para que o resultado não seja um incógnita. Todas as vezes que eu me deixei levar o resultado ficou aquém do que esperava".


Pela vida que ele teve nestas quatro décadas nunca esteve tão tranquilo e despreocupado com relação a sentimentos que os outros podem ter dele, porque ele mesmo não nutre sentimento especial, direcionado, acalentado, por nenhum outro ser bípede que povoa a Terra; assim é. 

Dentro das possibilidades ele vive muito bem, quedando-se longe das tais preocupações de afeto, de amor, de desejo sexual e da parafernália toda, como ele costuma sempre proferir em voz alta para que não se esqueça. 
O que o preocupava é o fato de estar pensando tanto em sua vida de eremita, em sua vida solitária dentro do castelo inatingível que ele cuidadosamente construíra por estes últimos bons anos de intenso trabalho para esquecer aquilo tudo. Mas é possível esquecer?

Claro, ele bem sabe que a vida é furtiva, engana, faz esperar, aparece de supetão, tudo dentro das impossibilidades estatísticas que só mesmo a vida proporciona, daquelas certeiras e das impossíveis. Ele tem um refúgio seguro, uma fortaleza: seu castelo - o apartamento em que vive, companheiros Felino e Rex. 

Lá permanece longe da problemática do amor, das amizades mais profundas e do questionamento humano, sejas quais forem. Verdade, há o Licínio e Maximiano, veterinário e funcionário público. São os dois humanos mais próximos, excluindo as possibilidades de fazer amigos no trabalho - que são impossibilidades, ele reitera -, e que já começam a se tornar trabalhosas estas relações de se levar adiante.

Acordar, cuidar do conselheiro real e do príncipe, trabalhar, voltar para casa, dormir. Neste meio tempo, ler, TV, música, passeios com o Rex, brincadeiras com eles dentro do castelo invencível: as possibilidades frequentes e que lhe dão prazer porque as controla inequivocadamente. Diante de outras possibilidades de estabelecer contactos, relação com o mundo, ele refuta. 

"São as impossibilidades, eu creio. Hei de controlar o desejo de querer mais proximidade, que anda tão forte, parece mesmo uma gana e se eu ceder, tornar-me-ei um esganado sem fim. Foi tão capenga e foda da última vez que as possibilidades de abertura deste portão não deveriam existir... Até quando vou conseguir me manter imutável? Sei lá... Mas vou tentar. Repetir para quê? Aquele sofrimento todo? Improvável".

http://shadowness.com/jennieyuen/roman-figure-sketch 

sábado, 3 de agosto de 2013

88 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - BARBA NO BANHO

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Costumeiramente seu banho é até que rápido, de ligar ao chuveiro e desligá-lo uns cerca de 10 minutos, ou um pouco mais. Quando está mais frio, como agora na cidade de São Paulo, aproveita para se barbear durante o banho - às vezes 'completo', como dizia um antigo amigo dos 20 e poucos - para melhor relaxar a pele do rosto e pescoço. Cerrada que é, acastanhada com pelos vermelhos duros, o barbear-se torna-se mais fácil embaixo da torrente de água quente. Tudo enfumaçado, música pelo telefone e, aí então, demora-se mais, quase 1/2 hora, completo ou não (verdade que tem sido bem completo por estes tempos).

Minutos de intenso relaxamento e despreocupação com o mundo paulistano/brasileiro/latino/terráqueo que existe lá fora.
São bons minutos para pensar com vagar, sem o temor de querer se apressar para encontrar a suposta solução para o suposto problema, e se deixar levar pela água que vai embora, lavando-o e confortando de quentura o corpo que padece no inverno.

Enquanto isto, do lado de dentro da apartamento, seus dois convivas brincam um com o outro de correr e de esconder; neste último verbo quem leva nítida vantagem é Felino, o conselheiro real, já Rex, o príncipe herdeiro, começando a ficar mais parrudo que grande, tenta com afinco alcançar seu amigo gato com relativo sucesso. Talvez porque o primeiro se deixe pegar para poder subir nas costas dele e mordiscar as orelhas. O troco é dado quando o cão abocanha o outro peludo em sua cabeça e lhe dá longas lambidelas. E lata alto no ouvido do gato!


No banheiro, música de um rapper branco americano no último volume; somente ele, no fim do banho que deve ser incompleto, o espelho nem fica com vapor. Aprendera um truque há alguns anos: derramar água com um pouco de espuma de sabonete e pronto! 
Um corte perto do maxilar e o sangue escorre.
Sem dor, somente um arrepio provocado pelas três lâminas e a água quente parece anestesiar o ferimento. Mais um embaixo do labio inferior.

"Hoje estou querendo me matar aos poucos? Com aparelho de barbear? Dois cortes em seguida e o último até doeu um pouco. Foda! Deve ser então porque estou querendo sofrer muito, só pode ser. Só rindo! E isto não passa pela minha cabeça. Bem, terminei aqui e o banheiro totalmente enfumaçado... Opa, mensagem no telefone. Nossa, é o Maximiano! De novo, por que será que ele tanto quer falar comigo? Porra! Passei a toalha e abri o corte de novo... É será que estou tentando me matar. Não, nada, nunca, sem chance".

E ri muito dele mesmo por achar que isto o faria morrer se esvaindo em sangue por todo o banheiro. Como uma cena do clássico Psicose, só que com um cara de barba feita.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

VIAGEM CXXXI - CRENÇA E ARGUMENTOS

Crer para ver.
Ver o quê? Quem?
E quem não vê, não olha, não enxerga?
Bobagem, meu amor, bobagem.
Tudo é fato e contra os fatos não há argumentos,
Estes que a vida insiste em apresentar
como uma araponga exaltada 
a soar seu canto estridente,
malhando em ferro frio, feito uma bigorna.
Não, os argumentos preferia-os quentes
e mais flexíveis; que se envergassem com voracidade
e com uma veracidade mais tranquila.
Porque destes argumentos que a vida prepara
(frios, metálicos, milhares),
eu quereria distância... 
Porque não adianta "eu quero", já que estão fora de controle.
São alheios e os percebo passando sem pedir licença.
Eles vão em frente, alertas, vigorosos
Mas eu creio neles. Nos tais argumentos tão "deliciosamente" preparados.
Sou mais delicioso ainda que estes "pequenos argumentos".
Certíssimo sobre isto. Vejo. E creio.