sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

VIAGEM CVII - PELA TELEVISÃO, UM TELETRANSPORTE

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Tolda-se o céu com a noite que vinha teleguiada
pela tela daquela televisão.
Faria, se pudesse, um teletransporte para a teledramaturgia
que pelo telescópio de seus olhos castanhos - os esquecidos - via todo dia, 
sem tolice alguma, sem hesitações.
Teleguiava-se pelos seus sentimentos, pelas suas dores como a telalgia que
um dia quiseram impingir. Refletiu-se no mamilo pontudo e pelo corpo.
A cor amarela, a cor laranja do dia haviam ido embora e pela  tevê

via no intervalo o talassêmico canalha, gritar, prometer que se ganhar... 
E turvar-se diante do montante de dinheiro que sempre vem.
Toda sua cor agora parecia ser a contida nos cifrões.

Talassocrata como Netuno, dominante como Zeus, fez o que todo homem
faz quando solitário, deitado, quase nu:
De uma talagada só, derramou o copo goela abaixo o bourbon de milho 
porque o fazia, telepaticamente, estar junto de quem gostava e de quem
nutria o único sentimento viável - ele amava. Tolheu-se apenas no 3° copo:

"Tolice tolher-me!", pensou em voz alta.
Para que tolerância com o dia já toldado de breu, 
quedava-se melhor se amortecido estivesse. 
Em meio aos milhões encarapitados, por meio de seu telescópio,
via, ainda com certa nitidez, alguns dos apartamentos mais altos,
com luzes esmaecidas ou brilhantes acesas.
"Que fazem por ali? Quem faz?"
Queria saber...

Teletranportar-se-ia a um único lugar que nunca pode - que tolo - ocupar
pacificamente: o coração. 
Sabia com clareza refletida de uma tulipa à luz do verão de Amsterdã
que amaria, que protegeria, que acalentaria e que seria
protegido, amado e
acalentado:
O que toda novela de qualquer teledramaturgo mostra. No final, mas mostra.

http://www.humansinvent.com/?_escaped_fragment_=/2244/how-teleportation-can-fight-cancer-and-phone-hacking/

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

VIAGEM CVI - GRAVANDO A FANTASIA

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Ouvia-se pela cidade de São Paulo, o grande centro do trabalho de tudo no país tropical abençoado sabe-se lá por quem, os barulhos da festa de carnaval - o maior espetáculo ao vivo da terra -  se fora mesmo influência dos portugueses do lado de lá do Atlântico. Quando se falava vivo ela já acendia a luz dos olhos para concorrer com o brilho das fantasias dos destaques ensoberbecvidos, dos passistas hedonistas sem roupas e dos dirigentes bicheiros das ditas associações "culturais". Vivo era ele, o que ele fazia, culto traduzir-se-ia não em jogos de bicho, extorsão e brigas pelos pontos dados do júri previamente escolhido - sabe-se lá como, por quem e porque...

O samba-enredo lido no papel parecia o único fator desta parafernália de carnaval de país ufanista a sobrar: havia um pouco de história, de geografia, de folclore, de tradições e de inovações. Sobrava a música no papel, porque ao ser cantada/entoada/gritada pelos integrantes que gastam $ o ano todo para desfilar por 50 minutos perdia-se toda e qualquer vislumbre de cultura.

"Eu duvido que os integrantes, do passista, passando aos destaques, ao escalão mais alto da 'agremiação cultural e recreativa' saibam o real significado dos signos e significantes cantados por eles. Deve ser tudo decorado na ponta da língua para  não fazerem feio na avenida, ops, no sambódromo. Eles pouco sabem a diferença entra X e Y, além de serem histéricos por utopias que diram menos de 1h. 'Para quê?' Eu me pergunto se tudo isto vale mesmo todo o esforço 'cultural' daquelas pessoas quase nuas, daqueles dirigentes bonzinhos como mafiosos chineses e de todo o $ gasto em uma imbeliclidade que nos faz que sejamos conhecidos lá vfora como o país do carnaval'. E com este conhecimento vem o turismo sexual, bunda de fora, pouca roupa, o país da alegria escancarada, o país que sabe fazer festa como nenhum outro... Que triste para este chão cheio de contradições sociais!".

O reinado da folia estender-se-ia por 4 dias apenas em terras de Piratininga, trazendo alívio para ele. Imaginar-se em outras cidades de praia onde o carnaval é levado a sério em outras cidades de praia por uns 30 dias ao mesmo, fora aqueles fora de época.
Gravando mais um de seus depoimentos em frente à câmera, ainda nova em folha, em uma madrugada de frio para um verão chuvos, ele discorreu sobre os efeitos dos dias de putaria quase generalizada no Brasil, onde tudo se faz vista grossa e acham que por ser carnaval... "Então pode tudo". 

"Hã? Como assim? Levado a sério por quem? Por gente que não trabalha e se diverte às custas de outros imbecis que se permitem ser montados por este monte de escória humana festeira? A coisa boa é que rondar ali por perto do Anhembi é proveitoso de um tanto que não fazem ideia! Porque? É fácil escolher de pronto e mais fácil ainda executar o serviço. Ano passado, posso dizer que me esbaldei com o diretor de uma escola! foi muito gratificante ver a cara dele em cima daquele monte de folhinha de jogo do bicho. Amarrei-o como se faz a um cachorro e fui apertando na garganta. Pedi para que latisse igual a um. Teve também uma destaque! Rsrsrs! Ri muito quando eu a fiz engasgar com a penas sintéticas de avestruz goela abaixo, que se não me engano, eram as únicas peças que a turbinada trajava. Comeu 'de livre vontade' todas da fantasia, até lhe faltar o ar Rsrsrs. E o passista todo requebrado nas pernas, orgulhoso de suas raízes de sambista. Raízes:? Onde mesmo? É piada né? Foi bem fácil pegá-lo pela vaidade ao me apresentar falando com o sotaque de português de Portugal, meu crachá de uma Televisão Internacional Portuguesa... Foi mais fácil ainda bater nos dois joelhos dele com meu taco e vê-lo agozinar de dor até desmaiar. Quebrei-o em seguida. E assim foi naquele ano, com mais quatro ainda na lista.Como? Evidente que sim! O mundo ficou bem melhor sem eles, ora!".

Na "sexta gorda de carnaval" como muitos imbecis brasileiros gostam de afirmar e apregoar, ele, um magrão de virar tripa, foi descansar logo após o depoimento na garagem. O velho sobrado do velho bairro da Vila Mariana quedou-se quieto e escuro; todas as janelas fechadas, apenas a do quarto de cima voltada para trás ficou aberta durante uns minutos para ventilar. Podia-se ver a fumaça de cigarro sair por ali, quem atento estivesse. e foi só. O sábado e principalmente o domingo logo viriam e demandaria intenso trabalho e afinco. 
Ele fora dormir já cansado e descansar para realizar melhor a cada dia sua tarefa, que de fantasiosa não tinha nada. Tudo muito real, como um desfile que perdura tão pouco.

http://www.rgbstock.com/bigphoto/dMvncI/Miami+Carnival+details+3

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

65 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - TRAIÇÃO DETALHADA

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Estendido de costas pelo chão do carpete, no melhor lugar que há para dormir fora da cama, ali perto da sacada, alta hora da madrugada - as horas mortas -, ele pensa sobre o que Maximiano lhe falou contando de maneira entusiasmada poucas vezes vista por ele; o conselheiro-mor e o príncipe dormem ao lado ressonando com a tranquilidade infantil tão característica de ambos. Vestindo as meias, cueca e camiseta de dormir, e resistentes baforadas no cigarro.

O brilho nos olhos e as mãos em desalinho pelo ar, braços que se moviam, um irrequieto quadril sobre a cadeira, e seu amigo metálico lhe disse que a esposa grávida está de dois meses e que eles irão se separar. Com detalhes que beiram um esquadrinhamento por varredura como agências de inteligência faziam - e fazem - ele rememora cada minuto da inusitada conversa entremeada por chopes, conhaques e uma comida aqui, outra ali.

--- Já voltei para casa do meu irmão, quase de mala e cuia. Também, depois do que aconteceu, nem dava mais para morar junto. Falta passar lá e carregar o resto das minhas coisas. Tenho muito o que pegar lá e já arrumei um amigo que tem uma picape. Sábado tiro tudo. Sabe, estou tão aliviado, posso dizer que estou contente!
--- Entendo. E ela, como está?
--- Não sei responder isto, não sei mesmo. Mas não me preocupo se está bem ou não. E mais, nem quero saber. Tenho que me preocupar comigo agora e isto está tomando conta de tudo o que estou fazendo. Ela nem merece minha preocupação, nem que eu a procure para tentarmos reatar.

 --- Ia perguntar isto, tirou da minha boca. Você não pensa que pode ser mais uma crise passageira, alguma coisa assim? Calma! Deixa terminar. Você dizia que ela te amava, que fazia de tudo por você e que na cama se davam super bem. 
--- É bem isto: eu me dava bem com ela, mas ela não se dava comigo. Você imagina o que aconteceu? Olha, primeiro, eu estou muito contente que vou ser pai! Isto me enche de alegria e satisfação, mas... 
--- O que foi?
--- Simples: ela, ele o vizinho da frente, na cama, trepando!
--- Ah! Sério? Nossa!
--- Maior putaria, sem camisinha, de quatro, no anal!
Pela descrição cheia de detalhes, ele ficou desconcertado. Maximiano logo percebeu.
--- Exato, é esta cara mesmo que você tem que fazer! Eu ainda fiquei ouvindo antes de fazer uma entrada triunfal no quarto. Você não sabe: eu gravei com o telefone! Gravei! Faz uns 20 dias. Meu, eu entrei como se nada estivesse acontecendo, peguei meu relógio - este aqui, ó - olhei para ela e disse: "Assim, sem encapar o danado? Quer me passar aids é? Safada sem-vergonha!". 
--- O quê? Duvido! 

--- Calma, não acabei. Eles pararam, eu saí do quarto e da cozinha pude ouvir ambos tentando se vestir rapidão meu. Falando coisas, o que não sei. Até aí, estive calmo. Quando ouvi a palavra chifrudo, derrubei todo o café na camisa e engasgado fui para cima deles, dos dois! Ele saiu correndo, mas antes consegui dar um murro nas costas dele, foi só. Mas percebi que ele deu travada na respiração.
--- Cara, nem sei o que falar! Estou perplexo.
--- Depois, fui falar com a biscate. Discutimos e tal. Falei um monte! Um monte! Até de sexo anal, que ela se recusava a fazer comigo porque dizia que, como é evangélica, Deus e o pastor proíbem. Evangélica? Sei. Sei muito bem! Ela esqueceu de dizer que Deus é contrário à traição. Saí da casa naquele dia mesmo. Incrível que eu estou aliviado, sei lá... Feliz porque vou ser pai. Claro, vou fazer o DNA mas tenho para mim que o filho é meu.
--- Poxa, que bom então.
--- Mas nos dias seguintes cara... Tive vontade de morrer, de me matar, de sei lá. Quis comprar uma corda e me enfocar, tá ligado? Que tristeza do inferno cara. Mas passou, uns dias depois. Ainda bem.
--- Cacete! Ainda bem mesmo que não fez!


Ainda deitado perto da sacada, pôs-se a pensar em tudo isto que lhe fora contado. Adormeceu, usualmente inclusive, por ali mesmo. Acordou no meio da noite, também usual, e dirigiu-se ao quarto com o Felino nas mãos e o Rex cambaleante atrás o seguindo. Murmura sua perplexidade já na cama antes de cessar a vigília. "Nossa, coitado dele! O que eu faria nesta situação?"

http://www.mccamley.org/blog/tag/jew%20of%20malta

sábado, 2 de fevereiro de 2013

64 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - COMEMORAÇÃO

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E o dia chega. Sexta-feira, em fevereiro, o mês mais curto que derrete, antes do carnaval, completa 46 anos.
Abrindo os olhos vendo o teto e um pedaço do travesseiro em cima de sua cara, 'surge' na hora o aniversário para se lembrar. Ocorre há décadas. Ainda em silêncio pelo castelo invencível, usualmente antes da hora de levantar, ele espreguiça e permanece na cama; o dia começa a entrar pela janela fechada vencendo a escuridão das horas da madrugada. Dá para ouvur o barulho da chuva na sacada que vem lá da sala (não há porta fechada dentro do castelo, basta a da frente e a da cozinha - "dois buracos ao mundo").

"Sempre acho que nasci na época errada, desde quando eu estava no ginásio; faz tempaço. E quando este dia diferente chega, este pensamento é mais concreto. Tenho até mesmo o desejo de ter vivido numa outra época. Hum... Em duas épocas, mas sem esta de ter vivido outras vidas passadas. Apenas queria ter vivido àquele tempo. Podem ser separadas por alguns séculos, aí eu posso escolher".

Fecha os olhos alguns minutos montando uma HQ para confortar-se sobre viver em outra data sobrevivendo nesta de hoje - do seu aniversário: no século II, quando Roma dominava tudo de mais importante no Ocidente sob Trajano ou sob Antonino, ou ainda lá pelo ano entre 1100 e 1200, na Escócia. Dez minutos depois pula da cama com uma câimbra na perna esquerda acordando o conselheiro-mor e o príncipe herdeiro; a caminhada matinal rotineira pelo apartamento tem sua vez. Com tempo, ele prepara o café, alimenta seus companheiros e decide sair com o Rex antes de ir trabalhar. Uma caminhada fazendo o quadrado (que é um trapézio regular, na verdade) pela quarteirão para que ele possa aliviar-se e aguentar até mais tarde, logo à noite. Resolveu o problema canino fisiológico.
Barba feita, desodorante sem cheiro. Tudo pronto e tudo passado e impecável em sua roupa, com ternos - claramente - escuros de todo dia, sapatos pretos com cadarço e solado de couro, "como precisa ser", segundo ele. Carinhos em ambos, um último gole de água gelada em cima da boca amarga de café quente, porta trancada nas fechaduras, elevador e o bom dia ao zelador. A rua: agora, ele terá que se haver com o mundo neste dia de aniversário insuportavelmente inadiável desde uns 10 anos para cá.

Pela hora do almoço seu estômago ronca bem alto adiantando que não esperará por muito tempo toda aquele trabalho infindável. ele então para tudo e mais cedo que o usual, sai para comer. O telefone toca, Maximiano do outro lado.
--- Parabéns! É hoje seu dia né?
--- É sim! Obrigado pela lembrança.
--- Anotei uma vez que a foi à padaria no meu telefone. Faz tempo! E como você está? O que vai fazer logo mais? Comemorar em grande estilo? 
--- Que nada. Saindo daqui do trampo, vou para casa. Cansadão para cacete.
--- Vai nada - e ri sabendo que o convencerá. Vou passar aí lá pelas 19h. Convidando para um chopp, uma cerveja. Tem jeito...? Por que não aceito não como resposta.
--- Liga um pouco antes então porque não sei que horas o trabalho vai terminar hoje, ok? Tenho uma reunião no fim da tarde.
--- Para de inventar! E ri mais uma vez. Eu te ligo, mas vou ligar daí debaixo do prédio imponente onde você ganha seu pão! Eu tenho uma novidade para falar. 
--- Ok, se eu atrasar muito, aviso você.

No meio da tarde, concentrado não mais na reunião, até porque ele fora desmarcada pelo chefe supremo do último andar, ele tem pouca certeza se quer mesmo estender a noite no dia do seu aniversário, como se parecesse uma comemoração, uma celebração.

"Posso ligar e dizer que a reunião está longa com um clima tenso e que precisamos resolver todo o problema ainda hoje. Que mentira! Acho bem pouco provável eu fazer isto, não gosto de mentir. Aprendi com o passado de mentiras que me contavam e que, por instinto de sobrevivência torto, entrei no jogo desta roda. Também tem que ele vai vir aqui e pode não acreditar em um sequer fonema que eu lhe fale... Mas me agrada por um lado ir e tomar algo, já por outro sei que vou sentir saudade do meu castelo invencível, inexpugnável, intransponível e secular. Espera! Na verdade, é bem estranho este Maximiano querer me ver hoje, sendo que temos nos encontrado direto. Porque? Ele parece bem no trabalho, então dinheiro não vai me pedir. Recém-casado, portanto não deve ter tantos problemas 'irresolvíveis' pendentes. Pelo que eu sei e o que consta, porque ele mesmo faz questão de falar sempre, é que o casal se ama. Qual será a novidade que ele vai me apresentar? Bem, já que estou livre e são quase 18h, vou terminar de passar a agenda da semana que vem com o secretário falante, fechar tudo e zerar o expediente".

Às 18h55, o metálico Maximiano liga avisando que está no saguão da recepção esperando-o para irem comemorar o dia dele. Descendo pelos elevadores, Ápio Licínio liga cumprimentando-o também, causando ainda mais estupor e sensação de surpresa. 

"Nossa! O veterinário do Rex e do Felino me ligar? Que coisa mais inusitada!  Nunca podia imaginar isto. Nem me lembro de ter passado a data de aniversário para ele... Hum... Lembrei, foi na própria clínica quando fizemos toda a papelada dos bichos e com dados pessoais meus.Foi quando levei o Rex para o retorno. A recepcionista me disse que é uma gentileza e 'nem precisa falar o ano, só dia e mês', sorrindo. Para quem não gosta de surpresas, nada fora da ordem, o dia está bem cheio".

No saguão ainda lotado de gente indo embora, seguranças com ternos que parecem de ontem, secretárias falando ao telefone e faxineiras iniciando o turno da noite, Maximiano o recebe com um sorriso expressivo e lhe dá um grande abraço apertado com palavras de "muita paz e saúde, porque você merece, você é um cara muito gente boa".

--- Fala aí! Qual é a novidade?
--- Ah, você nem imagina. Vamos lá na padaria e eu te conto. Hoje a despesa é por minha conta. Sem choro e sem vela, doutor das letras! Quero só ver sua cara quando eu contar!

O amigo põe a mão em seu ombro desavisadamente e caminham juntos naquela quase noite de horário de verão com céu prenunciando chuva. Deve ser uma daquelas que inundam a cidade de São Paulo.

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

VIAGEM CV - UM PASSO ATRÁS

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Um, dois ou até mais passos
atrás (e observar é o que resta),
porque quem está na frente, só olha para si mesmo
e para sua vontade e anseios
que resultam no grande poder do "eu.

Lá trás, que podem ser três, quatro passos
atrás; ele cansou
de querer ficar ao lado e do narcisismo de
quem está na frente.
Percebe por tentar alcançar com pernas rápidas

quem só conta mesmo com ele mesmo, sem
que permita alguém ao lado.
Porque é este lado a lado que faz toda
a diferença - ser iguais no desejo, no amor mais do que tudo, de que todos.
ele parou de seguir, de tentar e concentrar-se-á, então, 

para caminhar junto com valha toda a história de dor
de prazer, e de prazer de estar junto, e de prazer de querer estar junto,
de viver um ao outro, pelo outro. 
Pela amor de conversar, ouvir, mudar de opinião, fazer mudar e
pela paz que traz todo dia mesmo em meio a guerras

que talvez nem todas dele...
(a paz de saber do amor, de saber amar e amado ser)
Tudo ali vale o lado a lado, vencendo o vento de frente, 
vencendo a resistência que quase derruba.
Um passo à frente ele fará.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

VIAGEM CIV - VICIADOS E MENTIRAS

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"Viciados são sempre iguais. Julgam-se tão espertos e descolados e são os mais idiotas que se pode haver neste viciado mundo de intoxicações mil. Por que são os mais fáceis? Primeiro porque mentem descaradamente e sempre, achando que os outros engolem goela abaixo o que eles inventam. 

E mentem porque alguns creem mesmo nas tais mentiras que, de tão sinceras, soam como verdades absolutas. Mas é tudo uma mentirada sem tamanho. Arrisco a dizer que a maioria mesmo toma tudo o que foi dito por eles - os viciados - como a verdade transparente. Para mim não! Eu gosto mesmo é quando eles mentem na minha cara, sem vergonha alguma, explicando, dando detalhes, sugerindo lugares, horários, pessoas... Tudo para compor 100% aquilo que debaixo da minha barba de 5 dias eles jamais lograram êxito. É muita cara-de-pau".

Alguns exageram nos maneirismos, falam sem parar, olhos que não se fixam nos dos seus interlocutores e contam mentira em cima de outra mentira. Estes estão no primeiro degrau dos mentirosos, o degrau mais baixo; o desarme da mentira é tão simples que nem me dá muito prazer. 

Depois, vem aqueles contidos, que falam baixo e que te olham nos olhos - estão um patamar acima - e que também contam apenas mentiras. 
São mais racionais e sabem que nem todo mundo é passível de ser logrado, porém, também são pegos exatamente pela contenção dos gestos: muita racionalidade e frieza.... Tsc tsc tsc... Transparecem a mentira também, ainda que demorem mais um pouco quando estão tentando enganar. 

E por fim, existem aqueles mentirosos com razoável ('algum', melhor dizendo né?) grau de inteligência: falam com você ao mesmo tempo contidos e logo em seguida exageram nos gestos, olham nos olhos e partem para contar a mentirada toda vinda de uma verdade. Então, estes desenvolveram uma arguta capacidade de ler as reações do interlocutor e parecem tornar-se os donos da verdade. Sim, estes são os menos fáceis de eu pegar. O que significa que tenho apenas um pouco mais de trabalho. Todos eles acabam no meu alvo, que é certeiro de maneira chata e previsível!

Eu os deixo seguirem mentindo na hora. Para todos os níveis de mentirosos, deixo crerem que estou sendo convencido porque é muito mais divertido, chego até me distrair vendo toa a atuação de tormento ditada tão-somente pelo vício em qualquer coisa. No final, explicar que 'todo viciado como você é um imbecil. Você é burro', não tem preço não!".


A captura de tais homens e/ou mulheres se traduz em uma diversão maior do que qualquer outro grupo. Ele ri muito quando se depara com um deles, principalmente com aqueles que estão no primeiro degrau dos mentirosos. A estes, coitados, ele ri até com escárnio de deboche. A diversão é maior, apenas isto. Porque todos os grupos nos quais a sociedade se dividiu - para o bem e para o mal - tem o seu valor em ser pego e então, fazer o mundo melhor. 

Por exemplo, quando descobre o porquê de X pessoa ser alvo, as sensações são variadas, passando da diversão - no caso dos descritos acima - ao alívio quando se depara com prepotentes e violentos, ou ainda de rapidez em realizar quando identifica os esnobes e poderosos (ele sempre teve nítido para ele que poderosos não se traduzem tão-somente nos endinheirados), que abarcam qualquer um que tenha poder sobre o outro e que o exerça de forma a humilhar. Neste grupo, o mais numeroso, é o mais volátil e disperso - afinal, qualquer um pode se encaixar.


É que quando um mentiroso, inadvertidamente, aparecia em seu caminho, a diversão tornava-se certa, seu humor melhorava sobremaneira. Ele até se permitia ouvir mais, demorava-se um tantinho a mais com a X pessoa. E o riso, também era mais.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

459 ANOS DO MEU AMOR

Reprodução, São Paulo vista do céu [sítio abaixo]
O que vale mais neste mundo? Qualidade ou quantidade?
Números ou pessoas? O que os números representam ou o que as pessoas fazem e são?
Nesta grande urbe em que vivemos, com números tão expressivos - para o bem e para o mal - pode-se levar em conta que o que conta são as quantidades:
PIB - São Paulo detém cerca de 12% de tudo o que o Brasil produz (algo ao redor de incríveis R$ 445 bilhões);
População - a maior do Novo Mundo, com 11,2 milhões de habitantes (não tem para Nova York, nem para a Cidade do México e deixa Buenos Aires lá trás);
É a capital financeira da América Latina e do Hemisfério Sul.
Pronto, três exemplos - e dos bons - que mostram a força da cidade diante do país, do subcontinente e porque não, diante de todo o planeta? Mas os números podem soar arrogantes e presunçosos. Não é a intenção.
E claro, há também os 459 anos que a capital-síntese comemora hoje, 25 de janeiro, desde o distante 1554, quando padres jesuítas, no Planalto de Piratininga, edificaram a primeira construção do que viria a ser o que São Paulo é hoje e será amanhã.

Mas... Eu prefiro gente. Eu prefiro as pessoas buscando, encontrando, rindo, chorando, amando, que morrem de amor pelas esquinas e avenidas... Eu prefiro a diversidade paulistana com pessoas indo e vindo - discretas ou não, elegantes ou não - em um verdadeiro ziguezague de um formigueiro humano que não para de trabalhar um dia sequer, que não para de trabalhar uma hora sequer. Assim é minha cidade que adotei e que por ela fui adotado.
Falar que São Paulo "amanhece trabalhando" - o que é uma verdade - resvala no óbvio. A cidade é muito mais do que isto: São Paulo é as pessoas que aqui habitam, que vieram de longe, como coreanos, chineses e japoneses. Ou que vieram do outro lado do Atlântico como italianos, portugueses, espanhóis, libaneses, sírios e os africanos. Vieram também de dentro do Brasil, de gaúchos a amazonenses, passando por pernambucanos. Vieram de outras capitais e do interior do Estado de São Paulo. Todos se juntaram aos paulistanos nascidos e formaram este mosaico diverso (se me permitem o pleonasmo) que surpreende quem por aqui resolve passar: seja a trabalho ou para diversão.
São Paulo é a cidade que possibilita contacto com diferentes culturas e suas especificidades inerentes, todas ao mesmo tempo e agora.

E não é só de onde as pessoas vieram, suas origens. É mais: é o que elas são, o que fazem e como se relacionam. Misturam-se por aqui negros, orientais, indígenas e brancos; misturam-se aqui todas as orientações sexuais; todos os ritmos e todas as comidas. Homens e mulheres, crianças, jovens e velhos. Trabalhadores engravatados formais dos Jardins e da Vila Nova Conceição e trabalhadores informais da 25 de Março e do Brás. Eles sim edificam a cidade mais do que qualquer das inúmeras construções imponentes e modernas que a cidade possui.
A diversidade de São Paulo é o mundo. Está contida nos diferentes lugares que fazem a macha urbana paulistana ser vista por satélites que fotografam milimetricamente lá do alto.
Pode ser no Bixiga, na Vila Mariana, no Jaguaré, ou ainda na República, em Santo Amaro, na Cantareira, no Tatuapé, no Jaçanã... Cada bairro é uno e singular.

Tenho uma paixão desabrida pela cidade que salta aos olhos de quem me conhece. Eu mesmo que vim de Piracicaba, incorporei algumas características de um habitante de uma grande cidade passados mais de 10 anos morando aqui. E claro, trouxe algumas típicas do pessoal do interior, do caipira paulista. Aí está um ponto de diversidade: porque ao mesmo tempo que São Paulo acolhe, abriga e molda, ela é generosa e adquire tudo o que os forasteiros trazem na bagagem, como se fosse um grande movimento antropofágico "andradeano" que se espraia pelas artérias "Paulistas" de asfalto e sobe pelos "Copans" da grande cidade.
Uma metrópole marcada pela diversidade é de um jeito assim: toma conta e se deixa levar. Ama e é amada. Abraça e é abraçada.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

63 - ALEATÓRIAS HISTÓRIAS - UM DIA ANTES/UM DIA DEPOIS

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Do aniversário. De completar mais um ano.
Um dia antes é o dia da expectativa, é o melhor dia de todos os 365 (não que valha hoje a receita... Valia, mas agora não é o melhor, nem o pior; apenas esperado).
Um dia depois é o dia da ressaca cronológica, talvez o pior dia dentre os 365 (este ainda vale como sendo o pior de todos).

Quando fez 18, 19, 20 anos e até seus 30, 35 anos, o mês anterior já se tornava um período de grande ansiedade e de grande expectativa pelo que viria no grande dia. Sim, porque o dia - o durante - ainda quedava-se como o dia mais importante dos 365 dias, ou 366, que completam o ano. Na semana anterior, a festa já estava programada com os amigos, já avisados. Normalmente, realizava-se na sexta ou no sábado, quando  grande data - o durante - no calendário, caía em dias da semana. Recorda-se que teve uma exceção, quando fez 28, e a festa foi um almoço-churrasco em um domingo; estendeu-se até quase à 1h da segunda-feira. 

Agora, entre os 40 e os 50, alcançado a segurança financeira e profissional. o dia anterior é ainda um dia de expectativa, mas não de ansiedade; fica por conta que não há muita gente que vá se lembrar, talvez um o outro ligue, o que ele duvida. Então, chegando perto do dia - que já não é mais o grande dia, como fora durante mais de 30 anos - ele procura pensar em outras coisas que lhe ocupem a mente de um quase senhor de 50, ainda que alguns falem que ele mal chegou nos 40. Vai fazer 46 anos em 2013.
 
Ano retrasado fizeram uma festa-surpresa no fim do expediente; bolo, 'parabéns pra você', refrigerante meio quente, copo plástico (ele detesta), brigadeiro, canudinhos doces e salgadinhos. Gente do andar de cima, do andar de baixo, seu futuro chefe - hoje é o presente chefe, único -, secretários e um monte de mortos de fome para comer tudo aquilo. Ele, quando levado a reunião de mentirinha e abriu a sala, quedou-se embasbacado e quase inerte como um urso polar no Ártico, não se mexeu, por segundos. Quando a editora-adjunta lhe pôs um chapéu (de criança) em sua cabeça e o elástico rompeu-se, ele saiu da catatonia e mergulhou então na festa. Foi um esforço que teve que se forçar para disfarçar o que seu pensamento tinha e que a cara não podia transparecer. Ele o fez com maestria digna de Beethoven. Aprenderam que não devem fazer mais festas como estas.

Quando o dia passa, ele percebe que um tempo que já foi... E foi para onde? A ressaca moral passa longe do fato de ficar um ano mais velho - isto não é, nem nunca foi problema para ser tratado com psiquiatra algum - e sim pelo fato de toda a expectativa ir embora, acabar, murchar e nada ocupar tal espaço. Passados dois dias, tudo vota ao normal, como sempre é para ele.
No dia anterior, faltando pouco para terminar o dia, o telefone interno toca, pela enésima vez. Seu secretário substituto avisa que há um homem que o espera na sala de entrada, no primeiro andar.

--- O nome Eduardo! Você perguntou? 
--- Maximiano. 
--- Ok, fala para ele aguardar uns 10 minutos que eu o encontro lá embaixo.
--- Nome de imperador romano, né, chefe? Porque não é tão comum hoje em dia.
Ele ri com certa surpresa e deboche.
--- É subalterno, do final do século III ao começo do século IV. Diga para ele esperar e manda servir um café e água enquanto isto. Não demoro.

Sem se apressar, ele junta suas coisas, pega o telefone, desliga os dois computadores, a TV só com a imagem, fecha gavetas trancando todas, a janela que tem uma vista linda, a porta do banheiro e sai.
No elevador encontra gente de vários andares. Um deles comenta sobre o aniversário que está próximo porque vira na lista exposta em todos os andares. Ele assente com a cabeça. E distrai-se no instante seguinte da conversa dos outros durante a longa viagem ao térreo com paradas múltiplas.

"Porque será que o Maximiano veio hoje aqui? Esteve na semana passada duas vezes e ficou com uma conversa mole, porque parecia que queria dizer alguma coisa, mas não dizia... Estranho. Este é ele, sempre falador, mas com muita cautela com o que fala, ele escolhe o que fala e, pelo visto, para quem fala. 'Maximiano'. Nunca pensei, aliás, porque ele tem este nome e se ele sabe quem foi e o porquê de terem dado a ele... Vou perguntar".


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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

VIAGEM CIII - VOZ ROUCA E MANSA

Reprodução, site abaixo

Ele prefere a voz rouca, de gente com a fala mansa e
que olha nos olhos, em olhos castanhos ainda mais...
Das dores que já passou, a intensidade de todas elas
não é maior do que aquela voz mansa, aquela voz rouca falando seu nome e
apoiando no desabamento de energia, na descontrução da fé, na
tristeza de coração...

Ele gosta dos gemidos a 2 e os longos silêncios entre
1 par que recostados juntos veem o que a TV mostra e 
riem junto de palavras ditas juntas, riem um do outro, de mãos entrelaçadas.
Gosta das músicas, gosta das comidas, de saber o que cada um gosta
e gosta das andanças pelos caminhos que percorrem,
sem parar, e para criar vínculos de sentimentos.

Tempo de frio, tempo de calor e o tempo de ficarem juntos
anda junto a eles, fazendo combinação para não ir embora sem
que tudo se esclareça... Porque, às vezes, existem contradições e
contratempos. Mas é só. 
A conversa é mansa, é de paz e é de amor. É de suspiro,
é de toque e é de junção.

Simples como 2 + 2 = 4, fazem-se necessários um ao outro, sem
terem pensado em combinar tal conta.
De liberdade sozinho, ele cansou-se. Quer ter liberdade para
acompanhar o amor de verdade, aquele que se torna manso, 
trazendo vida à sua vida de desamores, que, agora
é passado distante, com vaga e remota lembrança.

Em uma noite de escuridão, de breu de meter medo, de
pesadelos infindáveis de perseguição, de morte, basta
ouvir a respiração ao lado da cama em desalinho e o 
sono vem embalado na segurança de amar.
Por que? Ele prefere aquela voz rouca, a mansidão da fala e os
olhos diretos nos dele.

http://www.zazzle.com.br/maos_entrelacadas_poster-228529744557574107

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

VIAGEM CII - ANÔNIMO CONTA COMO MATOU

Reprodução [sítio abaixo]
Paulistano de nascimento, nunca pensara em morar em outra cidade do Brasil que não fosse São Paulo. Por aqui, havia liberdade para ele realizar o que lhe era interessante e tudo o que a cidade própria carecia; e ele se dispusera a ajudar. Milhões e milhões que fazem de qualquer um deles um anônimo, mesmo àqueles que desejam sair do anonimato com investidas no meio artísticos, social, dos grandes empreendimentos e do mundo do crime. Nem pior, nem melhor do que outras cidades Brasil afora ou mundo afora. 

Ele mesmo prezava, preservava e desfrutava do anonimato que só São Paulo podia lhe dar em meio ao mar bravio de gente que aqui nasceu e aportou; pessoas vieram de todos os lugares, misturando-se e criando tipos diferenciados. Dele podia-se dizer de um tipo comum: moreno claro, altura boa, corpo normal tendendo a ficar parrudo, entradas fortes e francas no cabelo castanho de alguns fios grisalhos, barba cerrada como arame, olhos castanhos, "il naso veramente italiano", modo de se vestir usual, dirigindo um carro comuníssimo; tudo isto com cara de quem se parecia com um vizinho ou parente que fosse. Qualquer um de nós podia tê-lo perto.

Mesmo com a nova investida na câmera de fabricação chinesa em uma investidura "meia-boca" no mundo dos vídeos e gravações, ele não se deixava sobrepujar pela natural tentação de se tornar famoso, custo que fosse. Preferia continuar tudo como sempre fora. Mas que encantado ficara pelo novo aparelho saltava aos olhos; nem desmontava mais todo o circo armado na garagem úmida do velho sobrado comprado por esforço próprio: ele só trocava de dvd e fazia um vídeo atrás do outro.

"Estou devendo contar como comecei meu trabalho extra nas horas vagas... Sim, eu sei! Fiquei de contar várias vezes já e sempre dou uma desculpa? Ah, nem é assim vai. Como? Não quero contar? Claro que quero e as desculpas eu dei mesmo porque só queroa criar mais curiosidade e além do que, da primeira vez, a luz acabou, recorda? Chovia feito balde por toda a região metropolitana. Não entendi, repete! Hã? Para, eu vou contar sim! Só rindo mesmo... Eu to aqui, sentado no banquinho alto, em frente à parede nua azul-clara, do lado do meu semi-novo sedã de velho com a boca sentindo o gosto do tablete de chocolate que acabei de comer. Olha, ainda tenho chocolate nos dentes. Hahaha. Cigarro queimando aqui no cinzeiro, copo de conhaque na estante. Ok! Não vou mais demorar, calma! Você quer desde quando eu percebi que teria que fazer alguma coisa? Porque isto aconteceu, esta sacada, na minha adolescência. Acho que eu tinha uns 15 anos. Não? Ah, quer saber como aconteceu da primeira vez sem o porquê do passado? Está bom, acho que fica meio desconexo, porém, se assim deseja...

Mais uma grande tempestade se aproximava com rapidez e a luz começou a falhar por todo o quarteirão. Sem sentir-se intimidado, manteve-se firme em contar o início de seu ótimo trabalho de quase todo dia. Como um ator de teatro que atua em uma peça, que com bom público sempre está em cartaz, ele não se distraiu e apenas atormentado como que era (e todos somos) postou a voz e deu início ao espetáculo.

"Serei o mais breve possivel, ou o melhor que eu conseguir, ok? Um gole antes para molhar a garganta. Pronto. A garrafa onde está? Já vi, fiquem tranquilos. Bem, iniciando. Faz alguns anos já, para ser exato, faz 23 anos que eu me mantenho concentrado naquilo que eu faço.No dia, eu acordei decidido a fazer o que pensava. foi uma atitude merecedora de um prêmio, mas não ligo para prêmios. Tinha recém comprado meu primeiro carro, a álcool, e na madrugada de uma terça-feira, passeei por uns 30 minutos aqui pelo bairro mesmo. De repente, eu estava indo sentido Santos, ali na avenida Ricardo Jafet. Vi um assalto na esquina onde eu parara o carro por causa do farol... Não lembro se já havia farol de três tempos, mas acho que sim. estou falando isto, porque demorou e eu pude ver tudo. O cara, o que seria um mano nos dias de hoje entra em luta corporal com o engravatado. Este, um brasileiro de cor de europeu, revida e muda o jogo e começa a desferia chutes e pontapés no brasileiro cor de brasileiro. Não tive dúvidas. Parei  o carro e a sanha carcomia meu corpo (vale dizer que hoje eu estou mais controlado da sanha. Sim, o prazer só aumenta, mas hoje eu sei que preciso fazer porque eu gosto de fazer. Àquela época eu só gostava). Bem, encostei o carro e fui falar com eles. O executivo mandou eu não me meter e me fuder, e o bandido, já quase se levantando, pedia ajuda. Não tive dúvida: quebrei o pescoço do bacana quando eu fiquei atrás dele: uma gravata no engravatado e ouvi o osso do pescoço se quebrando fácil, fácil... Depois fui pesquisar e acho que quebrei a vértebra C3. Só uma caótica tentativa de se desvencilhar e ele jazeu inerte no chão sem gritos, sem sangue, e então, caiu como uma jaca podre. O outro, assustado, e rápido correu em direção ao meu carro, abriu a porta do passageiro. 'Ah,vai me roubar, seu filho de uma puta?!', eu disse para ele. Quando entrei no carro, ele tentou sair. Ah, não teve jeito, nem titubeei um segundo. Peguei pela garganta, com os dedos afundando nela e apertei até ele começar a ficar roxo, olhos esbugalhados. Acabou, foi assim".

Para não descombinar com os outros dias, à noite, a luz acabou depois de um grande raio caído ali por perto. Satisfeito com o desempenho de hoje em contar como acontecera a primeira vez, ele subiu as escadas e deitou-se sem o banho da noite e pegou no sono tão rápido que nem teve tempo de ouvir o próximo trovão, seguido pelo óbvio raio. 

http://www.getthefive.com/articles/the-in-crowd/small-cities-are-enough-for-many-millennials/